Acompanhamento Terapêutico


O acompanhamento terapêutico como novidade para o tratamento
23 23UTC maio 23UTC 2009, 22:26
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Karen Alves e Carolina Brum

* Apresentado no:  ”I Congresso Brasileiro de Acompanhamento Terapêutico: singularidade, multiplicidade e ações de cidadania”, São Paulo, 2006.

Introdução:

A antipsiquiatria inglesa, a psiquiatria democrática italiana e a psicoterapia institucional francesa (Barreto, 2000), trouxeram mudanças radicais para o atendimento em saúde mental.

As propostas de tais movimentos – pode-se afirmar que são várias suas concepções– colocaram em xeque o modelo bio médico de atendimento. De modo geral, os questionamentos dirigiram-se às instituições e suas práticas, dentre elas, o encarceramento, o tratamento farmacoterápico e o funcionamento hierarquizado da equipe terapêutica. Em contrapartida, a doença passou a ser compreendida a partir de aspectos sociais e relacionais, o que trouxe como conseqüência a consideração de que instituições eram responsáveis por grande parte sofrimento psíquico.

Sabe-se que os avanços no processo de desconstrução de um modo de assistência são lentos. Devemos admitir, então, que apesar de efetivos avanços na área saúde mental (Ministério da Saúde, 2001) e a própria expansão da prática do acompanhamento terapêutico, as concepções ditas bio-médicas, ou resquícios delas, permeiam o atendimento no cuidado à saúde no Brasil, apesar de darem sinais de esgotamento (Vietta, Kodato & Furlan, 2001).

Dentro desse contexto de transformação radical de atendimento à saúde, surgiram novas formas de organização das instituições e novos tipos de atendimentos. Trataremos da relação entre dois desses novos cuidados: o hospital-dia e o acompanhamento terapêutico.

Objetivamos, inicialmente, refletir sobre uma situação específica: a entrada na rede. Relatamos a relação estabelecida entre G, a psicóloga do hospital-dia e a acompanhante terapêutica. Acreditamos que essa experiência, por mais mínima e breve que seja, é extremamente rica no sentido em que nos oferece uma ilustração das dificuldades vividas junto à rede de atendimento pelo AT.  Tendo o histórico da reforma psiquiátrica em relevo, estabelecemos o trabalho de acompanhar em suas diferenças e novidades.

A atuação do acompanhante herda, em certa medida, as resistências sofridas pelos movimentos de reforma psiquiátrica na descontrução do paradigma bio-médico. Além disso, como toda profissão que surge de demandas recentes, a teoria que fundamenta o acompanhamento terapêutico não está disseminada nas concepções que orientam o funcionamento das instituições de saúde mental. Não se sabe, de modo geral, o que é ou qual é o papel do acompanhamento terapêutico.

Pretendemos, assim, trazer uma contribuição, que podemos considerar como mínima perante a problemática da inserção do acompanhante nos serviços de saúde e para a formação de futuros acompanhantes. 

 Enfrentando pequenas resistências junto à equipe

 Como o primeiro objetivo desse artigo é a reflexão sobre a atuação do acompanhante junto à equipe, optamos por fazer apenas um relato pormenorizado desse atendimento. O episódio, ao qual fazemos menção, ocorreu na primeira experiência de acompanhamento terapêutico de uma das autoras do presente artigo.

Esta experiência está situada no contexto de estágio oferecido por um curso de formação de AT, em uma clínica particular de atendimento psíquico. As observações adjacentes, que mencionamos nesse relato são, portanto, provenientes da experiência das acompanhantes e autoras desse texto.

 Segue a descrição do caso pela at:

 Quando entrei no hospital-dia, estava ansiosa. Ao conversar com a psicóloga do Centro de Convivência[i] de G.[ii], fui assaltada por um profundo incômodo. Fui recebida com ‘certo’ descaso pela terapeuta, que duas vezes seguidamente, interrompeu nosso diálogo, como se eu não estivesse ali, para discutir amenidades com outras colegas de trabalho. Ela me deu, por fim, nitidamente irritada, por algum motivo, algumas poucas informações sobre o caso. Por fim, durante o almoço, chamou G., e realizou a indicação para o acompanhamento terapêutico da seguinte maneira:

 “- Está é a… e ela vai te acompanhar. …”

“- Ah, sim… legal.” Ele respondeu em pé ao lado mesa.

 Então acertamos o dia, o horário, o local, o pagamento da ajuda de custo e, assim, estava definido nosso encontro, resultando que:

 Nos dois primeiros encontros G. esqueceu-se de mim, esqueceu-se do combinado.

 G. é um rapaz de 27 anos, universitário, afável e inteligente. Ele foi encaminhado para o hospital-dia após uma agressão realizada a um professor, motivada por sentimentos de perseguição. A indicação para o acompanhamento foi realizada a partir de um quadro depressivo que se aliava às alucinações auditivas.  O seu esquecimento não parecia provir de sua confusão mental. Aliás, os seus esquecimentos foram motivados pela ida a uma reunião de um partido político. Em minha inexperiência, a at considerava que aquela resistência era uma dificuldade inerente ao tratamento.

Somente na supervisão, quando questionada quanto ao sentido do esquecimento de G., foi atentar-se para a importância do enquadre. O sentimento no momento do encontro com a psicóloga no hospital-dia foi o de ‘desimportância’ e de ‘importunação’ do trabalho alheio. E, talvez, seja essa sutileza que G. tenha captado, repetindo a atuação da equipe sobre mim ao se esquecer do atendimento.

A sensação de desqualificação da própria atividade, muitas vezes, perpassa a prática inicial do trabalho. As resistências são, algumas vezes, da rede de atendimento que sutilmente secundariza o tratamento, como foi visto no caso, e quase sempre, da família, que a identifica com uma atividade de caráter de mero lazer.

A demanda pelo AT: 

Como uma prática incipiente e, ainda, desconhecida no meio institucional e social, o acompanhamento terapêutico carece de justificação. Essa justificativa pode consistir em estratégias da acompanhante no sentido de criar espaços de ação e de interlocução com a rede e com a família que pode consistir em explicitar a potencialidade do tratamento.

 Sabemos que a demanda pelo AT é, muitas vezes, uma demanda terceirizada, realizada pela família ou por membros de uma instituição de saúde mental. Devemos observar, então, que a entrada do acompanhante na rede é uma entrada mediada.

A demanda da instituição para o início do tratamento poderá ser, em muitos casos, uma demanda indefinida, constituída apenas no desejo que de o paciente possa usufruir de um novo tipo de tratamento, qualquer que ele seja. No momento do enquadre, o vínculo do paciente com os integrantes da rede de atendimento é ramificado para a acompanhante. A partir desse episódio, percebe-se que o momento inicial da prática do acompanhante terapêutico é, de certo modo, o trabalho de explicitar o próprio trabalho junto à equipe e junto à família.

A entrada na rede de atendimento pode ser uma entrada problemática ou, mesmo, uma entrada descuidada, exigindo da AT uma reflexão cuidadosa quanto às estratégias para a realização posterior de um trabalho em equipe. Dificuldades estas, que acaba “saltando” para dentro do atendimento, como parece ter sido o caso. 

A atividade do acompanhamento é, de certo modo, um exercício pessoal de afirmação de seu papel enquanto participante ativo da rede de atendimento: um agente de uma atividade de caráter inovador no cuidado e no trato à saúde mental. 

 O manejo junto à equipe durante o acompanhamento: a novidade de ser acompanhante

Nesse tópico, procuraremos extrapolar as questões do relato acima a fim de pensar a atuação do acompanhante a partir dos elementos de diferença que ele traz para o atendimento. Por isso, procuraremos especificar qualidades específicas desse atendimento, e qual a relação disso com a atuação do acompanhante junto ao paciente e à equipe terapêutica. Essa novidade está relacionada aos novos aspectos da vida do paciente trazidos para a equipe.

O hospital dia é marcado por uma circulação restrita dos espaços, que denotam a relação inevitável entre alguém, que é o paciente e um outro, que é o cuidador. No acompanhamento terapêutico, essa relação de cuidado, que inevitavelmente supõe uma diferença entre dois sujeitos que se encontram, perde partes de seus símbolos. A disposição fixa do ambulatórios ou a rotina dos ambientes coletivos dos hospitais-dia saem de cena, dando lugar a outros rituais podem ser criados pelo paciente. Diferentemente de tais ambientes, há uma diluição da hierarquia que o atendimento de caráter psicoterapêutico herda do atendimento médico.

Sem aqui queremos nos alinhar a uma visão idealizada do acompanhamento terapêutico, consideramos que o espaço clínico da rua é o espaço privilegiado da criação e da imprevisibilidade. Assim, o acompanhamento terapêutico estabelece-se não apenas como uma novidade para o tratamento, mas é a própria novidade na vida do paciente, que será comunicada no trabalho junto à rede.

Nesse sentido, o acompanhante, no caso, depara-se muitas vezes com uma visão ‘conservadora’ acerca do paciente ao entrar em contato com a rede de atendimento e com a família. Torna-se uma tarefa extremamente difícil desmistificar determinados estereótipos relacionados ao paciente, especialmente, se a desmistificação procura atuar sobre possibilidades de criação do sujeito, que são para o acompanhante terapêutico, princípios de sua prática. Princípios estes, herdeiros da resistência dos movimentos que visam desconstruir o paradigma de atendimento à saúde focalizado na doença.

Assim, compreende-se porque se costuma nomear o acompanhante como o terceiro da relação entre a família e a rede de atendimento.  Esta é, talvez, a forma amena de nomear este “intruso” da relação, que traz um novo olhar e um novo cuidado não somente sobre o tratamento, mas sobre o paciente. Em uma espécie de um amenizado ‘duplo vínculo’, todos afirmam que o acompanhamento vem contribuir para o tratamento, mas não ele escapa de incomodar a dinâmica do sintoma em que se enredam o paciente, a família e a equipe.

Considerações finais

Afirmamos que historicamente o acompanhamento traz um componente de diferença para o atendimento. No entanto, se dar conta disso e lidar com este componente trazido pela proposta não é um exercício nem um pouco fácil.

Sendo assim, procuramos levantar nesse texto possíveis dificuldades da prática clínica do acompanhamento e traçar relações dessa dificuldade com o surgimento histórico dessa prática.

Perceber a historicidade de um fenômeno social como a loucura consiste em abarcar a contingência de uma determinada compreensão realizada. Consiste em balizar a própria compreensão e estar alerta para os diferentes modos possíveis de um determinado atendimento: os seus possíveis erros, sua própria dificuldade de articulação e, mesmo, a perversidade que pode se esconder atrás desse modo.

Estudar conceitualmente a história da loucura consiste nisso: em perceber seu trato ao longo do tempo. Trazer esse estudo conceitual para a prática clínica do acompanhamento é uma tarefa difícil. Consiste ainda em levantar os olhos do presente e pensar ao redor: perceber os mecanismos de exclusão das diferenças, os jogos de poder, as relações entre poder e conhecimento. 

Bibliografia:

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Barreto, K. (1997/2000) Uma proposta de visão ética no acompanhamento terapêutico in: Crise e Cidade: acompanhamento terapêutico (organizadores Equipe de acompanhantes terapêuticos do Instituto A Casa) Editora Educ. São Paulo. pp.241-268

Barreto, K (2000) Ética e técnica no Acompanhamento Terapêutico Andanças com Dom Quixote e Sancho Pança Unimarco Editora. São Paulo.

Bertolote, José M. Legislação relativa à saúde mental: revisão de algumas experiências internacionais. Rev. Saúde Pública. [online] vol.29, no.2 [citado 24 Junho 2005], p.152-156, abril, 1995.

Disponível na World Wide Web: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101995000200013&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0034-8910.

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Canevacci, M. (1993) A cidade polifônica Editora Studio Nobel. São Paulo.

Cooper, D. (1967/1989) Psiquiatria e Antipsiquiatria Editora Perspectiva. São Paulo.

Goffman, E. (1987). Manicômios, prisões e conventos (D.M. Leite, Trad.) 2ª ed. Editora Perspectiva. São Paulo.

Foucault, M. (1997) Resumo dos Cursos do Collège de France (1970-1982) Jorge Zahar. Rio de Janeiro.

Foucault, M. (1998) O nascimento da clínica Forense Universitária. Rio de Janeiro.

Morel, D. (1990) Ter um talento, ter um sintoma : as famílias criadoras  Editora Escuta. São Paulo. pp. 13-38

Vieta, Kordato & Furlan (2001) Reflexões sobre a transição do paradigma em saúde mental Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.9 no.2 Ribeirão Preto 

 




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