Acompanhamento Terapêutico


Pesquisa analisa as atividades de arte e cultura dos CAPs

Fonte:  Agência USP de Notícias:   http://www.usp.br/agen/

Publicado em 28/abril/2011

O trabalho realizado nos Centros de Apoio Psicossocial (CAPs) da cidade de São Paulo seria beneficiado caso os profissionais de saúde tivessem maiores possibilidades de acesso a atividades de cultura e arte. Esta é uma das constatações de uma pesquisa de mestrado realizada pela terapeuta ocupacional Ana Tereza Costa Galvanese na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). “Os professores da rede municipal de ensino da Capital, por exemplo, pagam meia-entrada nos cinemas e teatros, mas esse benefício não é estendido para os profissionais de saúde que trabalham com atividades de arte e cultura, como acontece nos CAPs”, aponta.

Estudo analisou 126 atividades culturais e artísticas dos Centros de Apoio Psicossocial

Os CAPs existem em todo o Brasil e surgiram a partir da reforma psiquiátrica brasileira. Eles visam a substituição do antigo modelo, pautado no asilamento em hospitais psiquiátricos fechados, por uma proposta inovadora de atendimento em rede de cuidados, horizontalizado e de base territorial. A pesquisadora explica que os Centros são direcionados para pessoas com transtornos mentais mais severos e persistentes, como depressão grave e alguns casos de esquizofrenia. Entre outras formas de cuidado, eles oferecem atividades como música, artes plásticas, teatro, dança, cinema, fotografia, vídeo, etc., tanto nos próprios centros, como também em conjunto com espaços culturais da comunidade, como bibliotecas e casas de cultura. O trabalho é realizado por uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psiquiatras, arte educadores, etc. E atividades culturais, como cinema, exposições e teatro, são fundamentais para os profissionais desenvolverem os trabalhos com as pessoas atendidas pelos CAPs.

A pesquisadora analisou o tema em sua dissertação de mestrado A produção do cuidado através de atividades de arte e cultura nos Centros de Atenção Psicossocial CAPS / Adultos do município de São Paulo, apresentada em novembro de 2010 na FMUSP, sob a orientação da professora Ana Flávia Pires Lucas D’Oliveira.

Ana Tereza destaca que pessoas atendidas no CAPs são, como muitas outras, produtoras de cultura e de arte. Por isso, deveria ser dada uma maior consideração à produção cultural que os participantes realizam lá. Como exemplo, ela cita o artista plástico Artur Bispo do Rosário (1909 ou 1911 – 1989). Diagnosticado com esquizofrenia paranoide, ele viveu internado em um hospital psiquiátrico durante mais de 50 anos, mas isso não o impediu de produzir dezenas de objetos e peças destacadas no cenário da arte internacional. Mas o trabalho dele somente teve destaque quando se tornou público: “O reconhecimento que se dá a um trabalho de arte e de cultura depende da visibilidade que ele tem na sociedade”, destaca.

Visibilidade

Uma outra conclusão do estudo é a necessidade de dar mais visibilidade às atividades de cultura e lazer realizados no CAPs enquanto formas de trabalho qualificado que beneficiam os pacientes atendidos, a fim de romper com o rótulo de “entretenimento” que muitas dessas iniciativas têm entre os profissionais. “Um profissional de saúde que leva um grupo de pessoas em tratamento para assistir a uma comédia no cinema está realizando um atividade terapêutica, mas isso pode ser encarado de uma maneira equivocada”, explica.

O estudo de Ana Tereza foi realizado entre 2007 e 2009 e faz parte de uma pesquisa mais ampla intitulada Avaliação dos CAPs do município de São Paulo, coordenada pela professora Andréia de Fátima Nascimento, do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Ana Tereza foi uma das participantes da iniciativa e os dados de seu mestrado foram obtidos a partir deste projeto de pesquisa.

No mestrado, Ana Tereza analisou 126 atividades oferecidas em 21 CAPs da cidade direcionados para o público adulto, entre os 22 existentes na época. A análise foi feita com base nos relatórios produzidos por equipes de três pesquisadoras que participaram do projeto da professora Andréia Nascimento. Nos chamados “cadernos de campo” elas anotavam a rotina de todas as atividades oferecidas durante uma semana em cada um dos CAPs, além de breves depoimentos dos profissionais envolvidos em cada trabalho.

Tendências de cuidados

Na análise do material, Ana Tereza verificou a existência de três tendências nos cuidados das pessoas atendidas pelos CAPs. “As mais comuns foram as atividades realizadas exclusivamente dentro dos CAPs, voltadas à ampliação das competências pessoais [como falar, ouvir o outro], às interações dentro dos grupos e o foco no grupo enquanto uma ferramenta terapêutica”, aponta a pesquisadora.

A segunda tendência caracterizou-se por uma perspectiva clínica desenvolvida na interface da arte e da saúde, com desdobramentos em direção ao território. “Isso acontece quando a pessoa atendida pelo CAPs participa de uma oficina de pintura com um artista plástico em um espaço cultural da comunidade em que mora e expõe o próprio trabalho ao lado de uma pessoa da vizinhança. Aqui ele é, de fato, um produtor de cultura”, explica Ana Tereza. “Uma terceira e minoritária tendência se refere a dificuldades na condução das atividades, como a ausência de oportunidades de experiência estética e cultural por meio da atividade, já que essas dependem também dos repertórios dos próprios profissionais. Isso mostra que oferecer ao profissional de saúde mais possibilidades de acesso a atividades culturais pode beneficiar as pessoas que são atendidas nos CAPs”, finaliza a terapeuta.

Mais informações: (14) 8134-4249 ou email anagalvanese@yahoo.com.br

Palavras chave:  arte, CAPs, Centros de Apoio Psicossocial, Cultura, FMUSP, reforma psiquiátrica.



Indefinição é marca do acompanhamento terapêutico.
20 de maio de 2011, 11:58
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Fonte:  Agência USP de Notícias:   http://www.usp.br/agen/

Publicado em 28/abril/2011

O acompanhante terapêutico auxilia pessoas que necessitem alcançar a autonomia.

Dizer exatamente qual é a função de um acompanhante terapêutico é algo praticamente impossível, de acordo com a pesquisa da psicóloga Luciana Chauí Berlick, realizada no Instituto de Psicologia (IP) da USP. A indefinição que permeia todos os aspectos da atividade, inclusive sobre o perfil de quem ocupa ou poderia ocupar a função, gera angústia nos próprios profissionais, que emergem como aqueles que auxiliam os “sofredores psíquicos” a alcançarem a autonomia, para que consigam construir ou reconstruir suas redes sociais na comunidade da qual fazem parte.

No entanto, os acompanhantes reconhecem essa indefinição como responsável por proporcionar uma amplitude de possibilidades de atuação profissional, resultando em benefícios para o acompanhado. Na pesquisa Andarilhos do Bem: Os caminhos do Acompanhamento Terapêutico, a autora analisou a história do Acompanhamento Terapêutico (AT) e o discurso daqueles que trabalham na ocupação. “O papel da atividade ganha espaço na sociedade contemporânea, cuja marca é o individualismo competitivo e a perda de referências do coletivo, que destituem as pessoas de suas relações sociais”, conta Luciana.

As entrevistas com nove profissionais que atuavam como acompanhantes na época da pesquisa e a observação da literatura existente sobre o tema foram os instrumentos para as análises da pesquisadora. Mas a psicóloga destaca que não há ainda muitos estudos que abordam o assunto, uma vez que essa atividade foi “criada” recentemente, na década de 1970, na Argentina, nomeada pelo psiquiatra Eduardo Kalina.

Falas legitimadoras

Os discursos analisados indicam que o profissional que trabalha acompanhando é munido de um objetivo: perseguir a qualidade do vínculo afetivo com seus acompanhados, a fim de oferecer possibilidades que reinsiram a pessoa na sociedade. “O ‘bem’ ao qual me refiro no título do trabalho diz respeito a tentativa constante do acompanhante de levar a autonomia à pessoa e, dessa forma, a cidadania”. Segundo Luciana, o profissional cumpre o papel de ouvir aqueles que ninguém ouve, dando-os voz, e considerando o que dizem como verdade. “A verdade para eles, do universo deles”, coloca a psicóloga. “Dentro desse contexto, levamos a dignidade”, completa.

Na tentativa de entender mais sobre a função do profissional, Luciana investigou os discursos apresentados nas entrevistas a partir da metodologia da Análise Institucional do Discurso, elaborada pela professora Marlene Guirado, orientadora da pesquisa. “Ouvi o que os entrevistados diziam sobre ‘o que é ser acompanhante’, buscando as falas que se repetiam e que poderiam vir a legitimar características do Acompanhamento Terapêutico como atividade e profissão”, esclarece a psicóloga.

Profissionalização

De acordo com o estudo, a atividade aborda funções muito variadas. Além disso, o perfil dos acompanhados é distinto, abrangendo desde deficientes físicos e crianças muito agitadas à psicóticos. Por conta disso, Luciana afirma a importância de ouvir os que trabalham atualmente como acompanhantes no Brasil, considerando que a profissionalização do Acompanhamento Terapêutico tem sido motivo de discussão no mercado de trabalho do País e também nas universidades.

Segundo Luciana, os acompanhantes brasileiros, por conta de não existirem como “figura jurídica”, ou seja, profissionalizados, acabam não podendo atuar no serviço público, contratados como acompanhantes terapêuticos. “No Centro de Atenção Psicossocial (CAPs), por exemplo, o acompanhante é uma figura muito importante, com a qual a população brasileira mais necessitada ainda não pode contar de maneira garantida. É possível que um profissional que seja contratado exerça funções de um acompanhante terapêutico, mas se ele parar de trabalhar, quem pode garantir que a pessoa que ocupará a vaga também vai fazer o acompanhamento?”, questiona a autora.

“Na Argentina os acompanhantes já estão profissionalizados. Porém, no Brasil, ainda se analisa os prós e contras da legalização para essa profissão, cuja indefinição é uma característica que se apresenta benéfica em diversos aspectos”.

“É possível levantar a questão de que a busca por uma definição mais fechada, decorrente da profissionalização, pode “engessar”, ou “limitar” o exercer da atividade”, esclarece a psicóloga.

Variedade e amplitude

Nas falas dos entrevistados, também estava presente a ideia de que qualquer pessoa, de diferentes áreas, pode vir a trabalhar como at. “Dentre os acompanhantes que participaram da pesquisa, três eram psicólogos, três eram terapeutas ocupacionais e os outros três, enfermeiros”. Relacionado a esse aspecto do Acompanhamento, os discursos investigados mostraram que os profissionais sugerem a criação de um curso específico, que defina o “perfil” da atividade. “Mas como a ocupação abrange filosofia, biologia, medicina, sociologia, direito, dentre outras muitas áreas do saber, é possível que nenhum curso dê conta dessa definição”, aponta a autora do trabalho.

O Acompanhamento Terapêutico representa uma atividade profissional muito importante para a “Reforma Psiquiátrica”, que começou na década de 1960 e está presente no contexto da sociedade contemporânea. “A Reforma propõe transformações no tratamento da loucura”, explica a psicóloga. “O Acompanhamento Terapêutico está intimamente ligado à ideia de criação de serviços que substituam os manicômios, e que não tratem as pessoas deslocando-as do convívio social, nem privando-as da cidadania e da dignidade”. Luciana defendeu seu doutorado no dia 20 de abril de 2011.

Mais informações: (11) 3297-9081, (11) 9111-3852, email luchaui@usp.br ou diluclo@terra.com.br




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