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Karen Alves
* comunicação apresentada nas Jornadas do Fórum do Campo Lacaniano em dezembro de 2010.
Desde o início da minha formação sempre me interessou o trabalho com a psicose. Hoje penso que há uma coincidência entre o lugar social da loucura e daquele que imigra, situação na qual eu me encontrei. Drummond, no poema a Ilusão do Imigrante, brinca com os significados da saída de uma cidade diante permanência do lugar da subjetividade. Ele diz: ai, de mim, nunca saí [...] Quando vim de minha terra, se é que vim de minha terra (não estou morto por lá?). A correnteza do rio sussurou que eu havia de me quedar lá donde me despedia. Sabemos que o inconsciente é recalcado na neurose enquanto que na psicose é a céu aberto. Escutei repetidas vezes, a paciente me dizer (arrisco aqui uma ordenação), primeiro, com perplexidade, segundo, com irritação, por último com afeto: querida… eu morri. O que você faz aqui?.
O trabalho que apresento nessa comunicação, o acompanhamento terapêutico, é uma prática que surgiu na Argentina, no começo da década de 70, perante necessidades clínicas distintas das abordagens clássicas como a internação, a medicação, a psicoterapia ou a psicanálise. Em uma equipe composta por vários profissionais, o papel do acompanhante terapêutico era designado no interior de uma estratégia de tratamento, visando suprir a dificuldade específica encontrada naquele caso pela equipe. Aproximar-se de pacientes que recusam o tratamento, e estão em situação de isolamento e o acompanhamento próximo de crises são algumas das várias funções que o AT exerce em um tratamento.
Ao longo das quatro últimas décadas, o acompanhante terapêutico, até então essa figura flutuável entre as demandas da equipe e da família do paciente, adquiriu perspectiva técnica e ética própria à sua oferta de laço ao acompanhando. Atualmente, a literatura sobre AT, ao menos a orientada psicanaliticamente, possui como ponto pacífico a idéia de que o acompanhante tem o papel de fazer girar tais demandas em favor da escuta que ele possui do acompanhado.
Tal como orientada na psicanálise pelo estudo de Lacan, a meu ver, o papel do acompanhante terapêutico é o de fazer ouvir a voz do paciente em meio a outras demandas, fazendo progredir a ação de tornar essa voz, menos objeto do discurso da ciência ou dos ideais da família, e mais suporte do desejo do acompanhado. Como coloca Quinet (2005), a fórmula que nos orienta no campo da saúde mental é, onde estava o “doente”, introduzir o sujeito.
Vejamos um pouco sobre como me tornei AT de Samantha. Diante da idade avançada dos pais, um de seus irmãos a inclui em seu convênio. Nesse meio tempo, os pais procuram à instituição de saúde mental que após entrevistas com a paciente e a família dá início a uma série “conversas” com o convênio a fim de justificar a necessidade do acompanhamento terapêutico para aquele caso. Depois de seis longos meses de negociações o atendimento é viabilizado em uma alta freqüência, de 6 horas semanais, fator que considero preponderante para o trabalho.
Samantha tinha seus 40 anos e há 13 se encontrava restrita aos ambientes domésticos. Desde que havia tentado fugir de casa há 6 anos atrás, o portão permanecia trancado. Muitas vezes, Samantha sequer freqüentava o psiquiatra ainda que contasse com a medicação trazida pelos pais. Como membro da equipe de Ats desse hospital, fui convocada com a finalidade de “formar um vínculo” com a paciente para que, futuramente, ela pudesse freqüentar o hospital-dia. O psiquiatra, ao longo do tempo, pede para que confira se ela está tomando a medicação corretamente dada à forte presença de alucinações. E, de fato, pela idade avançada dos pais e a quantidade de medicamentos, Samantha estava ingerindo toda a medicação em combinações equivocadas.
O diagnóstico psiquiátrico da paciente, Síndrome de Cotard, cuja marca distintiva é o negativismo, fazia par com a questão da morte circulava pela casa de Samantha. O desamparo dos pais saltava aos olhos e a rígida crença de que “nada era possível” em relação a ela foram temas de várias supervisões.
O autor que descreveu a Síndrome no século XIX, Jules Cotard, tinha a ambição de tornar o delírio de negações (dos órgãos, do corpo e da própria vida) uma entidade nosológica de estatus semelhante ao delírio de perseguição. O delírio de perseguição estaria para a paranóia, enquanto que o delírio de negações para a melancolia e esquizofrenia.
Na psicanálise, sabemos que Freud abordou a psicose como uma patologia específica e determinada, com lógica e rigor próprios, entretanto, sujeita aos mesmos princípios do funcionamento psíquico considerado normal. Sabemos ainda que uma das maiores contribuições freudianas a esse campo é a consideração de que se a psicose é “distúrbio nas relações entre o eu e o mundo externo” (1924, p. 189), o delírio que se presumiria ser também uma formação patológica é, na verdade, “um remendo na fenda que se abriu na relação do ego com o mundo externo” (1924, p. 191), “uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução” (1911, p. 95).
O delírio seria o resultado de uma dinâmica pulsional na qual a libido, diante uma frustração, regride a uma representação anterior obedecendo ao princípio do prazer. Na paranóia, o delírio corresponde a uma regressão da libido às representações narcísicas, egóicas, enquanto que, na esquizofrenia, o retorno ocorre ao auto-erotismo, ao corpo próprio.
Ao retomar o psiquismo como inseparável do campo da linguagem e da fala, Lacan conclui que o delírio é um fenômeno elementar no nível de sua significação e, que por isso, não deve ser interpretado. Que diz o sujeito afinal das contas, sobretudo num certo período de seu delírio? Que há significação. (1956, P. 31). A significação se impõe, e para o psicótico, ela é perfeitamente compreensível. O delírio suscita interesse porque se situa no campo da compreensão como fenômeno incompreensível.
No que se refere à evolução do delírio ao longo do tempo, Lacan critica a concepção de Kraepelin de que este seja um sistema insidioso, de evolução contínua e impossível de ser abalado. Essa concepção delírio contradiz todos os dados da clínica, afirma Lacan. O delírio não é uma convicção absoluta e permanente, há sempre acessos que se ligam um elemento emocional na vida do sujeito. O sistema delirante varia, quer ele tenha sido abalado ou não. (1956, p.26-27).
Colette Soler nos ensina que a foraclusão do Nome-do-Pai, pedra angular do tratamento analítico, é, sobretudo, um axioma a partir do qual podemos explicar a relação do psicótico com a linguagem. A foraclusão é um mecanismo de defesa mais radical que o recalque, que submete as representações meta a uma espécie de banimento e de exílio. Por isso, a psicose é compreendida como efeito de um acidente na própria estruturação da linguagem, como “uma admissão no sentido que pode faltar, uma Bejahung primordial” (Lacan, 1956/1988, p.21).
Como não há uma negação da negação, não há condição de possibilidade de representação das negações no campo simbólico. Isso faz com que o sofrimento psíquico na psicose passe por uma “mostração” que acomete à paciente: eu morri, núcleo fechado em sua composição a qualquer dialética. Já os aspectos curativos do delírio e sua variabilidade nos fazem apostar nos efeitos da clínica do acompanhamento terapêutico, já que esta se vê estabelecida entre o distúrbio do eu e o mundo externo, nessa intersecção que protege o psicótico do laço social: a casa, o quarto, a luz apagada.
Vamos acompanhar, nesse caso, como essa relação delirante entre o paciente e seu corpo, caso de uma esquizofrenia, adquire uma mediação na transferência que possibilita alguma circulação social. Logo, nos primeiros atendimentos, ficou claro que eu teria que achar “um ângulo” para conversar com Samantha, seja apenas ao seu lado como uma espécie de companhia, seja sustentando imaginariamente uma conversa, pois, Samantha, poderia ser chamada, de maneira prosaica, de “pessoa que não fala coisa com coisa”. A proliferação de significantes sem nenhuma hierarquia na esquizofrenia é a expressão do investimento na representação palavra em desligamento de sua função de representar a coisa. A ausência de representação meta inconsciente, que garantiria o encadeamento significante implica em desagregação psíquica, distúrbio das associações e que podemos constatar no modo como Samantha usa a linguagem, ou é falada por ela, inúmeros solilóquios impassíveis de escrita. As propriedades dos nós borromeus nos ensinam obre o seguinte aspecto do caso: sem o enodamento do sintoma, os três registros simbólico, imaginário e real se encontram dispersos, da mesma forma que igualmente dispersos, minha imagem, minha voz, as palavras ditas, um traço que Samantha identifica do meu rosto. “Você é Jesus Cristo cuspido… você é minha mãe… você é minha irmã… você é um anjo …. você é igualzinha a mim”.
O núcleo duro do delírio, fechad.o a dialética, estou morta demonstra o desmembramento do ser de Samantha na localização do gozo no corpo sem qualquer possibilidade de mediação simbólica na esquizofrenia. A minha presença colocava para ela um impasse imaginário que suscitava novos esboços delirantes você está então sugerindo que eu seja então enterrada viva? A cada acompanhamento, renovávamos, então, a aposta, Karen, seu nome é Karen. O meu nome é Samantha … ela dizia o nome completo.
Ao longo desses freqüentes encontros, minha figura se estabilizou em torno de um apelido “Oi, Mac, você já está aqui…” e de uma atividade que exercíamos com alguma regularidade tomar sorvete. O corpo foi também um elemento capaz de reter alguma significação em meio à solilóquios e profusões imaginárias. O corpo, o objeto derradeiro de sua disputa com a mãe em brigas homéricas para “não tomar banho”. Nós saímos, mas o corpo dela ficava em casa. Em outra ocasião, na qual eu vi um cacto na sala e disse para a mãe, “olha, está quebrado”, ao que Samantha vociferou contra nós “parem de falar do meu corpo”, em outros momentos, em relação aos comentários da família, “há uma ba-fá-fá no meu corpo”.
Em um determinado dia, vemos uma posição distinta das demais, eu decido não tomar sorvete, nos o compramos normalmente, ela come e me surpreende com a pergunta: “você gostou do meu sorvete?”. Eu sorrio, ela ri. “Gostou sim, sua danada! (risos)”. Essa fala implica em um uso do corpo não mais correspondente as imagens de desmembramento, morta ou enterrada, mas um outro que goza do sorvete dela, goza dela.
O gozo que, na esquizofrenia, é localizado no corpo, pela paranoização do significante, é transladado para o campo do Outro. Essa função simbólica, ainda que precária, faz restituir um grau de narcisismo, um eu-objeto, que permite que Samantha volte a circular, seja ao redor de sua casa para uma caminhada, seja até terras longínguas, uma volta de carro próxima a casa em que vivenciou o primeiro surto, momento no qual, ela pode finalmente chorar não pela sua morte, mas por suas dores.
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Karen Alves e Carolina Brum
* Apresentado no: ”I Congresso Brasileiro de Acompanhamento Terapêutico: singularidade, multiplicidade e ações de cidadania”, São Paulo, 2006.
Introdução:
A antipsiquiatria inglesa, a psiquiatria democrática italiana e a psicoterapia institucional francesa (Barreto, 2000), trouxeram mudanças radicais para o atendimento em saúde mental.
As propostas de tais movimentos – pode-se afirmar que são várias suas concepções– colocaram em xeque o modelo bio médico de atendimento. De modo geral, os questionamentos dirigiram-se às instituições e suas práticas, dentre elas, o encarceramento, o tratamento farmacoterápico e o funcionamento hierarquizado da equipe terapêutica. Em contrapartida, a doença passou a ser compreendida a partir de aspectos sociais e relacionais, o que trouxe como conseqüência a consideração de que instituições eram responsáveis por grande parte sofrimento psíquico.
Sabe-se que os avanços no processo de desconstrução de um modo de assistência são lentos. Devemos admitir, então, que apesar de efetivos avanços na área saúde mental (Ministério da Saúde, 2001) e a própria expansão da prática do acompanhamento terapêutico, as concepções ditas bio-médicas, ou resquícios delas, permeiam o atendimento no cuidado à saúde no Brasil, apesar de darem sinais de esgotamento (Vietta, Kodato & Furlan, 2001).
Dentro desse contexto de transformação radical de atendimento à saúde, surgiram novas formas de organização das instituições e novos tipos de atendimentos. Trataremos da relação entre dois desses novos cuidados: o hospital-dia e o acompanhamento terapêutico.
Objetivamos, inicialmente, refletir sobre uma situação específica: a entrada na rede. Relatamos a relação estabelecida entre G, a psicóloga do hospital-dia e a acompanhante terapêutica. Acreditamos que essa experiência, por mais mínima e breve que seja, é extremamente rica no sentido em que nos oferece uma ilustração das dificuldades vividas junto à rede de atendimento pelo AT. Tendo o histórico da reforma psiquiátrica em relevo, estabelecemos o trabalho de acompanhar em suas diferenças e novidades.
A atuação do acompanhante herda, em certa medida, as resistências sofridas pelos movimentos de reforma psiquiátrica na descontrução do paradigma bio-médico. Além disso, como toda profissão que surge de demandas recentes, a teoria que fundamenta o acompanhamento terapêutico não está disseminada nas concepções que orientam o funcionamento das instituições de saúde mental. Não se sabe, de modo geral, o que é ou qual é o papel do acompanhamento terapêutico.
Pretendemos, assim, trazer uma contribuição, que podemos considerar como mínima perante a problemática da inserção do acompanhante nos serviços de saúde e para a formação de futuros acompanhantes.
Enfrentando pequenas resistências junto à equipe
Como o primeiro objetivo desse artigo é a reflexão sobre a atuação do acompanhante junto à equipe, optamos por fazer apenas um relato pormenorizado desse atendimento. O episódio, ao qual fazemos menção, ocorreu na primeira experiência de acompanhamento terapêutico de uma das autoras do presente artigo.
Esta experiência está situada no contexto de estágio oferecido por um curso de formação de AT, em uma clínica particular de atendimento psíquico. As observações adjacentes, que mencionamos nesse relato são, portanto, provenientes da experiência das acompanhantes e autoras desse texto.
Segue a descrição do caso pela at:
Quando entrei no hospital-dia, estava ansiosa. Ao conversar com a psicóloga do Centro de Convivência[i] de G.[ii], fui assaltada por um profundo incômodo. Fui recebida com ‘certo’ descaso pela terapeuta, que duas vezes seguidamente, interrompeu nosso diálogo, como se eu não estivesse ali, para discutir amenidades com outras colegas de trabalho. Ela me deu, por fim, nitidamente irritada, por algum motivo, algumas poucas informações sobre o caso. Por fim, durante o almoço, chamou G., e realizou a indicação para o acompanhamento terapêutico da seguinte maneira:
“- Está é a… e ela vai te acompanhar. …”
“- Ah, sim… legal.” Ele respondeu em pé ao lado mesa.
Então acertamos o dia, o horário, o local, o pagamento da ajuda de custo e, assim, estava definido nosso encontro, resultando que:
Nos dois primeiros encontros G. esqueceu-se de mim, esqueceu-se do combinado.
G. é um rapaz de 27 anos, universitário, afável e inteligente. Ele foi encaminhado para o hospital-dia após uma agressão realizada a um professor, motivada por sentimentos de perseguição. A indicação para o acompanhamento foi realizada a partir de um quadro depressivo que se aliava às alucinações auditivas. O seu esquecimento não parecia provir de sua confusão mental. Aliás, os seus esquecimentos foram motivados pela ida a uma reunião de um partido político. Em minha inexperiência, a at considerava que aquela resistência era uma dificuldade inerente ao tratamento.
Somente na supervisão, quando questionada quanto ao sentido do esquecimento de G., foi atentar-se para a importância do enquadre. O sentimento no momento do encontro com a psicóloga no hospital-dia foi o de ‘desimportância’ e de ‘importunação’ do trabalho alheio. E, talvez, seja essa sutileza que G. tenha captado, repetindo a atuação da equipe sobre mim ao se esquecer do atendimento.
A sensação de desqualificação da própria atividade, muitas vezes, perpassa a prática inicial do trabalho. As resistências são, algumas vezes, da rede de atendimento que sutilmente secundariza o tratamento, como foi visto no caso, e quase sempre, da família, que a identifica com uma atividade de caráter de mero lazer.
A demanda pelo AT:
Como uma prática incipiente e, ainda, desconhecida no meio institucional e social, o acompanhamento terapêutico carece de justificação. Essa justificativa pode consistir em estratégias da acompanhante no sentido de criar espaços de ação e de interlocução com a rede e com a família que pode consistir em explicitar a potencialidade do tratamento.
Sabemos que a demanda pelo AT é, muitas vezes, uma demanda terceirizada, realizada pela família ou por membros de uma instituição de saúde mental. Devemos observar, então, que a entrada do acompanhante na rede é uma entrada mediada.
A demanda da instituição para o início do tratamento poderá ser, em muitos casos, uma demanda indefinida, constituída apenas no desejo que de o paciente possa usufruir de um novo tipo de tratamento, qualquer que ele seja. No momento do enquadre, o vínculo do paciente com os integrantes da rede de atendimento é ramificado para a acompanhante. A partir desse episódio, percebe-se que o momento inicial da prática do acompanhante terapêutico é, de certo modo, o trabalho de explicitar o próprio trabalho junto à equipe e junto à família.
A entrada na rede de atendimento pode ser uma entrada problemática ou, mesmo, uma entrada descuidada, exigindo da AT uma reflexão cuidadosa quanto às estratégias para a realização posterior de um trabalho em equipe. Dificuldades estas, que acaba “saltando” para dentro do atendimento, como parece ter sido o caso.
A atividade do acompanhamento é, de certo modo, um exercício pessoal de afirmação de seu papel enquanto participante ativo da rede de atendimento: um agente de uma atividade de caráter inovador no cuidado e no trato à saúde mental.
O manejo junto à equipe durante o acompanhamento: a novidade de ser acompanhante
Nesse tópico, procuraremos extrapolar as questões do relato acima a fim de pensar a atuação do acompanhante a partir dos elementos de diferença que ele traz para o atendimento. Por isso, procuraremos especificar qualidades específicas desse atendimento, e qual a relação disso com a atuação do acompanhante junto ao paciente e à equipe terapêutica. Essa novidade está relacionada aos novos aspectos da vida do paciente trazidos para a equipe.
O hospital dia é marcado por uma circulação restrita dos espaços, que denotam a relação inevitável entre alguém, que é o paciente e um outro, que é o cuidador. No acompanhamento terapêutico, essa relação de cuidado, que inevitavelmente supõe uma diferença entre dois sujeitos que se encontram, perde partes de seus símbolos. A disposição fixa do ambulatórios ou a rotina dos ambientes coletivos dos hospitais-dia saem de cena, dando lugar a outros rituais podem ser criados pelo paciente. Diferentemente de tais ambientes, há uma diluição da hierarquia que o atendimento de caráter psicoterapêutico herda do atendimento médico.
Sem aqui queremos nos alinhar a uma visão idealizada do acompanhamento terapêutico, consideramos que o espaço clínico da rua é o espaço privilegiado da criação e da imprevisibilidade. Assim, o acompanhamento terapêutico estabelece-se não apenas como uma novidade para o tratamento, mas é a própria novidade na vida do paciente, que será comunicada no trabalho junto à rede.
Nesse sentido, o acompanhante, no caso, depara-se muitas vezes com uma visão ‘conservadora’ acerca do paciente ao entrar em contato com a rede de atendimento e com a família. Torna-se uma tarefa extremamente difícil desmistificar determinados estereótipos relacionados ao paciente, especialmente, se a desmistificação procura atuar sobre possibilidades de criação do sujeito, que são para o acompanhante terapêutico, princípios de sua prática. Princípios estes, herdeiros da resistência dos movimentos que visam desconstruir o paradigma de atendimento à saúde focalizado na doença.
Assim, compreende-se porque se costuma nomear o acompanhante como o terceiro da relação entre a família e a rede de atendimento. Esta é, talvez, a forma amena de nomear este “intruso” da relação, que traz um novo olhar e um novo cuidado não somente sobre o tratamento, mas sobre o paciente. Em uma espécie de um amenizado ‘duplo vínculo’, todos afirmam que o acompanhamento vem contribuir para o tratamento, mas não ele escapa de incomodar a dinâmica do sintoma em que se enredam o paciente, a família e a equipe.
Considerações finais
Afirmamos que historicamente o acompanhamento traz um componente de diferença para o atendimento. No entanto, se dar conta disso e lidar com este componente trazido pela proposta não é um exercício nem um pouco fácil.
Sendo assim, procuramos levantar nesse texto possíveis dificuldades da prática clínica do acompanhamento e traçar relações dessa dificuldade com o surgimento histórico dessa prática.
Perceber a historicidade de um fenômeno social como a loucura consiste em abarcar a contingência de uma determinada compreensão realizada. Consiste em balizar a própria compreensão e estar alerta para os diferentes modos possíveis de um determinado atendimento: os seus possíveis erros, sua própria dificuldade de articulação e, mesmo, a perversidade que pode se esconder atrás desse modo.
Estudar conceitualmente a história da loucura consiste nisso: em perceber seu trato ao longo do tempo. Trazer esse estudo conceitual para a prática clínica do acompanhamento é uma tarefa difícil. Consiste ainda em levantar os olhos do presente e pensar ao redor: perceber os mecanismos de exclusão das diferenças, os jogos de poder, as relações entre poder e conhecimento.
Bibliografia:
Amarante, P. (1999) Manicômio e Loucura no Final do Século e do Milênio in: Fim de Século: Ainda manicômios? (Fernandes, M.I.A., Scarcelli, I.R. & Costa, E.S., orgs) Editora IPUSP. São Paulo. pp.47-53
Barreto, K. (1997/2000) Uma proposta de visão ética no acompanhamento terapêutico in: Crise e Cidade: acompanhamento terapêutico (organizadores Equipe de acompanhantes terapêuticos do Instituto A Casa) Editora Educ. São Paulo. pp.241-268
Barreto, K (2000) Ética e técnica no Acompanhamento Terapêutico Andanças com Dom Quixote e Sancho Pança Unimarco Editora. São Paulo.
Bertolote, José M. Legislação relativa à saúde mental: revisão de algumas experiências internacionais. Rev. Saúde Pública. [online] vol.29, no.2 [citado 24 Junho 2005], p.152-156, abril, 1995.
Disponível na World Wide Web: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101995000200013&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0034-8910.
Brasília: Ministério da Saúde (2001). – 2. ed. revista e atualizada – Secretaria Executiva. Subsecretaria de Assuntos Administrativos. Coordenação Geral de Documentação e Informação Coordenação-Geral de Documentação e Informação.
Canevacci, M. (1993) A cidade polifônica Editora Studio Nobel. São Paulo.
Cooper, D. (1967/1989) Psiquiatria e Antipsiquiatria Editora Perspectiva. São Paulo.
Goffman, E. (1987). Manicômios, prisões e conventos (D.M. Leite, Trad.) 2ª ed. Editora Perspectiva. São Paulo.
Foucault, M. (1997) Resumo dos Cursos do Collège de France (1970-1982) Jorge Zahar. Rio de Janeiro.
Foucault, M. (1998) O nascimento da clínica Forense Universitária. Rio de Janeiro.
Morel, D. (1990) Ter um talento, ter um sintoma : as famílias criadoras Editora Escuta. São Paulo. pp. 13-38
Vieta, Kordato & Furlan (2001) Reflexões sobre a transição do paradigma em saúde mental Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.9 no.2 Ribeirão Preto
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Que paris é esse? — fragmentos clínicos[1]
Beatriz Helena Martins de Almeida
Rumo a Paris…
Invariavelmente, as saídas com Sílvia eram assim: nossos encontros duravam três horas, eu ia buscá-la em sua casa, saíamos com meu carro e ela indicava o percurso. Seu programa favorito era ir a um bom restaurante e comer, já que comer tinha o efeito imediato de apaziguar a angústia localizada em sua barriga. Comer não ocupava todo o tempo do acompanhamento e às vezes não fazia parte da saída. Dirigíamo-nos aos Jardins, descíamos a Rua Augusta, passávamos em frente ao escritório do pai, subíamos a Rua Augusta, descíamos a Haddock Lobo, subíamos a Bela Cintra, descíamos a Consolação, subíamos a Melo Alves, voltávamos para Rua Augusta, descíamos a Augusta até a Faria Lima, passávamos em frente ao shopping Iguatemi — shopping freqüentado por ela e pela família —, dirigíamo-nos ao bairro de sua infância, passávamos em frente à casa dos pais e em frente ao clube de que eram sócios. Às vezes, parávamos e permanecíamos um tempinho em um dos pontos do trajeto: escritório, shopping, casa dos pais ou clube. Invariavelmente, nessas paradas, Sílvia sentia-se mal, deslocada da própria história, parecia não pertencer ao seu próprio contexto familiar e social. O que Sílvia buscava na repetição inesgotável de tal trajeto?
Deixemos por um momento esse percurso para adentrar no campo do acompanhamento terapêutico.
Acompanhamento terapêutico é clínica. . .
O acompanhamento terapêutico é uma das alternativas de tratamento da loucura, que surge no âmbito da Reforma Psiquiátrica na Europa, muito embora sua origem institucional localize-se na América do Sul — como amigo qualificado —, é oriundo do auxiliar psiquiátrico e do agente comunitário, personagens que marcaram uma especial aproximação do “louco” no panorama da Reforma, que buscava romper com as práticas asilares e segregativas dos manicômios.
No Brasil, as práticas em Saúde Mental baseiam-se, principalmente, em dois modelos da Reforma Psiquiátrica na Europa: o italiano, que prioriza ações de cidadania e de reinserção social e o francês, mais influenciado pela Psicanálise, que prioriza a condução clínica e visa a subjetivação.
É notório que uma importante parcela das pessoas envolvidas no Movimento da Luta Antimanicomial aposta suas fichas no modelo italiano, mostrando-se avessa à Psicanálise, percebendo-a como elitista e prepotente, como detentora de um saber que subjuga os “loucos” como doentes, aproximando a Psicanálise do campo da Psiquiatria segregativa.
Penso que tal engano decorre, em parte, da história da Psicanálise no Brasil, na qual — diferente do que aconteceu na Argentina —, os psicanalistas se mantiveram distantes das instituições de Saúde Mental e do engajamento político na época da ditadura — salvo algumas iniciativas significativas. No entanto, a vinda de psicanalistas argentinos — que foram perseguidos pela ditadura de seu país —, a quebra do monopólio da formação de psicanalistas pela IPA, com a fundação de outras instituições psicanalíticas, como o Instituto Sedes Sapientiae e o início do lacanismo no Brasil reverteram tal cenário e houve crescente aproximação dos psicanalistas às instituições de Saúde Mental e um avanço em relação à clínica das psicoses. Porém, observamos que ainda há muitas políticas de tratamento que apostam em práticas de reinserção social como um fim curador em si, sem considerar os aspectos da clínica, como o manejo da transferência e a direção do tratamento. Soma-se a esses aspectos a força da psiquiatria organicista — presente nas principais organizações de saúde em nosso país —, que, apoiada na medicalização preventiva, alia-se às práticas das psicoterapias comportamental e cognitiva e visa a remissão da fenomenologia psicótica, incluindo-se aí as alucinações e os delírios, bem como a normatização e a adaptação ao entorno social, ao preço da possibilidade de o sujeito significar sua existência.
Práticas adaptativas, ao invés de abrir lugar social a um sujeito particular, podem acabar por mantê-lo no lugar de mero reprodutor dos caprichos do Outro, devolvendo-o ao cenário que produziu a loucura como doença. Ao não conseguir responder ao ideal e ao padrão de desempenho e sucesso da via neurótica, o psicótico pode acabar por sucumbir a novas crises ou isolar-se em conseqüência do apagamento de sua subjetividade. Daí a importância da atenção clínica, apostando em efeitos de subjetivação, sustentando as saídas pouco comuns que os psicóticos encontram para se representarem no mundo como fundamentais para qualquer iniciativa de reinserção social. Para que haja laço social é preciso que haja suposição de sujeito na psicose e reconhecimento de sua maneira particular de existência.
Tenório ressalta o caráter refratário da psicose ao laço social[2], insistindo na importância da clínica como condição efetiva para a cidadania. Enfatiza, ainda, que a cidadania, enquanto pressuposto ético e político, é efeito da clínica e não ideal de empenho social imposto ao sujeito, “situação em que estaríamos substituindo a cidadania como algo que o Outro sonega pela cidadania como algo que o Outro impõe” (Tenório, 2001, p. 154) .
Freud indicou que o “o paranóico reconstrói o universo, de fato não mais esplêndido, mas ao menos tal em que possa de novo viver. Ele o reconstrói mediante o seu trabalho delirante. Aquilo que tomamos por uma posição mórbida, a formação do delírio, é na realidade uma tentativa de cura, uma reconstrução” (Freud, 1911, p. 1.522).
A experiência clínica demonstra que o efeito dos tratamentos norteados pela Psicanálise e a oferta de uma rede de acolhimento para os psicóticos é a estabilização, ou seja, o sujeito não surta mais e as freqüentes internações psiquiátricas para contenção de suas crises não são mais necessárias, muito embora o sujeito não prescinda de tratamento. Já a questão do laço social continua sendo um desafio à clínica. Aqueles que atendem psicóticos sabem da dificuldade da sustentação de um lugar social para loucura.
Para Quinet, toda fenomenologia psicótica, como passagens ao ato, delírios ou produções artísticas são tentativas de fazer laço social[3]. No entanto, o êxito ou o fracasso de tais tentativas advêm, em grande parte, da ratificação pública que seu entorno social lhe promove. A literatura psicanalítica elenca diversos exemplos, a publicação de Schreber, a passagem ao ato de Aimée, a obra de Bispo do Rosário, a literatura de Joyce, entre outros.
O acompanhamento terapêutico como uma estratégia clínica que atua no campo social, ampliando o setting para acompanhar o sujeito ali onde este se encontra e apoiando seus projetos, apresenta-se como um potente instrumento clínico na sustentação de um laço social possível.
Voltemos ao acompanhamento terapêutico de Sílvia.
Fragmentos clínicos: Sílvia é um caso. . .
Antes de retomar o percurso deixado em aberto no início do texto, peço paciência ao leitor, pois em matéria de acompanhamento terapêutico não cabe pressa. Antes da conclusão do trajeto e da precipitação de um sentido, é necessário apostar no processo, no caminho e, não raro, um bom começo de trabalho e tratamento refere-se à tentativa de reconstrução da história particular do sujeito psicótico, procurando isolar alguns pontos significativos que possam servir como sustentação em que as amarrações de sentido possam ancorar-se. Convido-os, portanto, a acompanhar-me num breve histórico do acompanhamento terapêutico de Sílvia.
Sílvia tinha trinta anos quando comecei a acompanhá-la. Era atendida por um psiquiatra e fazia terapia de família. Nesse momento estava desligando-se do hospital-dia que freqüentara por dez anos e limitava-se a ficar em seu quarto deitada no escuro, olhando para o teto, saindo apenas para o jantar semanal com um acompanhante terapêutico. O terapeuta de família, responsável pela condução de seu tratamento na instituição que a tratava, resolveu apostar na intensificação do acompanhamento terapêutico, com a entrada de mais duas acompanhantes.
Sílvia chegara à instituição em crise, após uma passagem ao ato em que ateou fogo ao próprio corpo. Sem recursos simbólicos, inscrevera na carne o inassimilável da emergência da sexualidade na adolescência: “fogo no corpo”.
No início do tratamento, sua mãe dissera ao terapeuta de família: “Você vai ter de fazer uma cirurgia, somos como siamesas”.
A maneira peculiar de relação que Sílvia estabelecia comigo e o lugar transferencial em que me incluía revelavam o diagnóstico e indicavam um caminho terapêutico.
Sílvia olhava-me como a um espelho, e se eu estivesse com olheiras, ela perguntava-me se ela estava com olheiras, olhando-me atentamente sem perceber que as olheiras eram minhas e não dela. Colada na imagem, facilitada pela semelhança de altura, cor de cabelos, olhos e pele, passou a buscar o mesmo corte de cabelo, com o tempo o mesmo peso, as bijuterias da outra acompanhante, as mesmas roupas da colega de moradia, entre outros atributos e costumes que copiava de seus pares.
A colagem que Sílvia fazia em meu corpo e sua imitação imaginária incomodavam-me, de modo que eu me perguntava se eu estava servindo de modelo para ela — técnica defendida por uma corrente de acompanhantes terapêuticos, que não me agrada, visto ser pedagógica e adaptativa (Bauer & Resnizki) —, no entanto, esse movimento partia de Sílvia e, não recuando ante o lugar em que ela me colocava, concluí tratar-se de um modo peculiar de transferência, que busca no outro em espelho uma suplência imaginária que confere integridade ao corpo despedaçado da esquizofrenia. Transferência difícil de sustentar, pois é suportada no corpo mesmo da acompanhante. Qualquer movimento da acompanhante pode ameaçar a integridade do sujeito. Sílvia deixou a franja crescer, ficando com um corte de cabelo semelhante ao meu. Quando cortei a franja, ela ficou muito intrigada, e finalmente defendeu-se: “Você fez de propósito”.
Quinet assinala:
“Pareceu-nos que a própria imagem do [Outro] [...] serve ao sujeito de molde, ou melhor, de eu, para que seu corpo não se despedace completamente no real. É a imagem do [Outro] que vem suprir para ele a linguagem que não estrutura o corpo. Esse Outro [...] lhe vale como o outro no espelho, remetendo-lhe uma imagem unificada” (Quinet, 2000, p. 122).
Sílvia relatou um sonho: “Minha tia caía sobre um monte de espelhos e seu rosto estava se desfigurando, ela estava ficando louca, eu e meu tio ficamos aflitos porque precisávamos salvá-la, era muito angustiante, pois salvá-la era com o corpo, com a vida”. Esse sonho não se manifesta como na neurose, como formação do inconsciente, necessitando de decifração; manifesta-se de forma desvelada, literal, indicando a fragmentação corporal presente na esquizofrenia e a necessidade de sustentação imaginária no corpo do outro.
Sílvia pedia que eu olhasse como ela andava, olhasse quando pulava na piscina, olhasse se estava fazendo certo, lembrando o apelo ao olhar do Outro que pode ratificar sua integridade, ainda que imaginária, como desenvolvido por Lacan (1949), ao tratar do estádio do espelho como formador da função do eu.
Nesse primeiro tempo de acompanhamento, tratava-se de sustentar a colagem imaginária com a presença e com o olhar; e, aos poucos, ir introduzindo uma certa dialética: igual, mas diferente.
Nesse sentido, incluir a autoridade do terapeuta de família como instância de decisões sobre o que podíamos ou não fazer (como viajar, sair à noite, interromper ou não o tratamento, entre outras coisas) foi fundamental. A acompanhante, enquanto Outro do espelho, apresentava-se barrada em sua onipotência, e permitia introduzir uma relação dialética entre o outro e o Outro, ou seja entre a colagem imaginária no semelhante e o lugar do código portador de uma lei que regula as relações.
Nos primeiros anos de acompanhamento terapêutico, Sílvia sentia a proximidade com as pessoas como muito invasiva, se esquivando do contato físico e defendendo-se quando alguém a tocava ou esbarrava nela.
A excitação — experimentada na rua, nos encontros e na imaginação — era vivida como despedaçamento do corpo, que ela expressava perguntando repetidas vezes se seu braço iria cair, se a perna seria amputada, gozando com a idéia de ficar “entrevada em uma cadeira de rodas”, ou seja, o espetáculo de horror que ofereceria ao Outro: “Já pensou, não ter braços, como vou fazer para comer? Deve ser uma dor horrível perder o braço”.
Sílvia localizava a origem dos fenômenos corporais que a invadiam numa tentativa malsucedida de enforcamento, dizendo: “Foi por causa da corda”.
Sílvia queixava-se de sentir “perseguição” na rua, pois acreditava que as pessoas sabiam o que fazia na intimidade e conheciam seus pensamentos, por isso riam dela e afastavam-se. Por outro lado, gozava com a idéia de que os terapeutas do hospital-dia divertiam-se com uma filmadora instalada em seu quarto, chegando a perguntar-me, algumas vezes, se eu havia assistido ao vídeo. Vale notar, além do gozo localizado no corpo (fenômenos corporais), a manifestação do gozo localizado no Outro, Outro que vê o que faz, sabe o que pensa e goza à sua custa (delírios erotomaníacos e persecutórios).
Tal persecutoriedade apresentava-se também na transferência. Em alguns momentos, ela acusava-me de provocar dor em seu corpo, de provocar que seu braço viesse a cair ou de explorar o dinheiro de seu pai.
Ao mesmo tempo que buscava atestar sua integridade corporal na presença e no corpo da acompanhante, Sílvia buscava no delírio apoio nos significantes, para fazer-se representar. Nesse caso, cabia à acompanhante oferecer-se, também, enquanto corpo de significantes e lugar de testemunho de sua produção delirante. Nesse momento, tratava-se de escutar o delírio e avalizar seu valor de verdade, mas, também, de fazer objeção ao lugar de perseguidora, no sentido de barrar a onipotência do Outro encarnado pela acompanhante, como estratégia para garantir a continuidade do tratamento.
Quinet aponta a paranoização[4] como direção do tratamento na esquizofrenia. Gostaria de ressaltar que não se trata de paranoização no sentido de transformar esquizofrenia em paranóia, mas de uma passagem de um tipo clínico a outro, que indica uma mobilidade dentro da estrutura, visto que a produção delirante na esquizofrenia apresenta-se fragmentária, repetitiva e sem a sistematização própria ao delírio paranóico. Apesar do recurso ao delírio, diante de situações novas ou que não podia simbolizar, Sílvia voltava a apresentar fenômenos corporais e de desintegração[5].
Façamos algumas considerações teóricas. Para Lacan, estrutura é limite, ou seja, não há passagem de uma estrutura a outra, não sendo pensável a neurotização da psicose como condução de tratamento. Neurose e psicose são formas diferentes de subjetivação.
Na neurose, o Nome do Pai vem significar o enigma do Desejo da Mãe, o que faz supor que à Mãe (enquanto primeiro representante do Outro) falta algo. À Mãe falta o falo, enquanto significante da falta a ser. Estamos falando em castração simbólica. O significante recorta o corpo e localiza o gozo; há uma perda de gozo, do gozo do ser, e o neurótico tem acesso ao gozo fálico. Em termos de sujeito, ao consentir com a linguagem para fazer-se representar, há uma perda, pois o significante é insuficiente para representá-lo por inteiro, e o sujeito precisa deslizar na cadeia para fazer recurso ao sentido, que sempre escapa; o significante representa o sujeito para outro significante.
Esquizofrenia e paranóia, enquanto tipos clínicos das psicoses, têm em comum a foraclusão do Nome do Pai no campo do Outro, não havendo, portanto, a inscrição da significação fálica. O psicótico goza de ser, ser o falo que completa o Outro, o que equivale a dizer que o gozo está localizado no Outro. Em termos de sujeito, não consentindo com a castração, observa-se a colagem da palavra à coisa, e o sujeito não se faz representar. Daí o delírio ser tomado como cura, pois é na cadeia delirante que o psicótico se faz representar como sujeito, no entanto trata-se de uma representação não referida à significação fálica, portanto não normativa.
A esquizofrenia levanta um problema adicional, pois não só o sujeito não está em função, como a função do eu está problematizada. O eu confere a ilusão de unidade e apóia o sujeito, funciona como matriz imaginária para o simbólico. O esquizofrênico precisa do outro como bengala imaginária para suprir a ilusão de integridade corporal. Se o outro não suporta a função de suplência imaginária, o esquizofrênico é dominado pelas pulsões auto-eróticas, o que equivale a dizer que o gozo está localizado no corpo. Se a suplência imaginária funciona, então algo de gozo pode ser localizado no Outro, tornando possível fazer recurso ao significante no delírio para representar-se, de forma capenga, pois sempre dependente da presença e do olhar do outro, que lhe confere um eu como base para efeitos de subjetivação.
Daí a hipótese de que a subjetivação na esquizofrenia orienta-se em direção à paranóia. Dito de outra forma, o cálculo na condução do tratamento da esquizofrenia seria produzir efeitos de sujeito, ou seja, a transladação do gozo situado no corpo a um ponto de gozo no Outro, e a construção no delírio de um significante que venha designá-lo. Daí a importância de Sílvia fazer recurso a alguma produção delirante.
Silvia perguntava repetidamente se seu braço iria cair, especialmente em situações em que as pessoas ao seu redor lhe provocavam excitação e “inveja”. Certa vez, no cinema, ela perguntava-me: “Minha cabeça cai?”, e a intervenção: “Sim, cai, mas não rola!”. Sim e não. Trata-se de acolher, mas introduzir a dimensão do equívoco, no sentido de dialetizar as certezas. Igual e diferente. Sim e não. De modo que provoque uma flexibilização nas certezas delirantes, que possa funcionar na direção da constituição de uma metáfora delirante.
Delirar sim, proliferação imaginária não. Também na clínica das psicoses, trata-se o real pelo simbólico, na direção da metáfora.
Sílvia: Tenho pensado em morrer, mas não tenho coragem de me matar.
Acompanhante: Não pode.
Em outro momento:
Sílvia: A vida é muito difícil. E se a vida me pedir para ir nadando até o Pacífico?
Acompanhante: Difícil sim, impossível não.
Sim e não, construção e castração. Se há um sim categórico é em relação à transferência, aceitar, acolher a transferência; e se há um não categórico é em relação às passagens ao ato.
Sílvia trabalhava construindo barreiras atrás da porta de seu quarto, inventando mecanismos para que algum objeto caísse e fizesse barulho para acordá-la, caso alguém tentasse entrar em seu quarto durante a noite para gozar de seu corpo enquanto dormia. Testava suas construções e chamava-me para testemunhar suas estratégias de barrar o Outro.
Sílvia passou a escrever bilhetinhos pedindo ao Outro que não estragasse suas coisas, colando-os em locais estratégicos de sua casa; ao passo que em momentos de angústia pôs-se a escrever pequenos textos, questionando em primeira pessoa o que poderia fazer para ser feliz, perguntando-se como se virar diante da solidão e das incertezas de seu futuro, notando o envelhecimento de seus pais e o próprio amadurecimento. Evidencia-se aqui um efeito de sujeito, enfim, algo operou, permitindo que ela se confrontasse com a falta — confronto muito difícil para ela, em virtude da carência de recursos simbólicos para lidar com tais questões.
Sílvia passou a expressar uma vontade de ser “normal” ou, diante das dificuldades, desistir: “eu queria morrer, mas não tenho coragem de me matar” ou “eu queria ser normal, mas a vida é tão difícil”, e ainda “acho que meus pais queriam uma filha que tivesse sucesso, devem estar decepcionados comigo”.
Sílvia passou a pedir licença e a desculpar-se se esbarrava em alguém, o que anteriormente era interpretado por ela como uma violência vinda do outro. O medo que sentia na rua foi se transformando em vergonha de sua sexualidade.
Deixou de constranger as pessoas que conhecia ou reencontrava, apresentando-se como queimada, enforcada ou louca. Voltou a sair sozinha e tem optado por engajar-se em cursos e atividades freqüentados por “pessoas normais”.
O funcionamento anteriormente descrito permanece: Sílvia continua a sentir angústia, perseguição, estranhamento em relação ao próprio corpo e a defender-se agressivamente, mas de uma forma circunscrita, ou seja, a partir de alguns disparadores: situações novas ou injunções que não consegue simbolizar; sendo a freqüência dessas manifestações cada vez menor e bastante reduzida em relação ao início do acompanhamento.
O efeito de conseguir minimamente barrar o gozo do Outro foi conseguir perceber a falta no Outro. Certa ocasião, Sílvia observou: “Eu sei que você também quer ter coisas que não tem”. E a partir daí, orientar-se num sentido de responsabilização, assumindo a autoria sobre seu sofrimento, como indica Souza: “Vejo, nesses relatos, um movimento onde se aceita a responsabilidade que concerne a cada sujeito. Vejo aí um ato, um gesto afirmativo, onde se assina, onde se assume como seu — como seu bem, sua companhia — aquilo que era o mal, o estranho, o intruso”.[6]
Se Sílvia vem assumindo a autoria sobre o seu sofrimento, confrontando-se com a falta, não prescinde da suplência imaginária no outro, no entanto, será que em algum momento poderá prescindir da presença de acompanhantes terapêuticos?
Sílvia disse: “Vou sempre precisar da Bia [acompanhante], quer dizer, talvez no futuro, de uma outra Bia”. No mínimo, ela põe no horizonte a possibilidade de uma substituição; será que essa “outra Bia”, poderá ser, em algum momento, uma representação em pensamento e não em corpo presente?
Paris é um nome. . .
Isto posto, reintroduzo a questão: o que Sílvia buscava na repetição daquele percurso que passava pelo escritório do pai, pelo shopping freqüentado pela família, pela casa dos pais e pelo clube de que eram sócios?
Durante meses acompanhei Sílvia por tal trajeto, onde estava evidenciado o circuito que tangenciava os pontos de referência de seu núcleo familiar. Num dado momento, para incluir aí uma diferença, propus que passeássemos pelos túneis recém-inaugurados, passando por baixo do Ibirapuera e do rio Pinheiros. Ela aceitou, por outros meses percorremos túneis, íamos da Avenida Vinte e Três de Maio ao Morumbi, e da Vinte e Três de Maio à USP. Passando pela USP, vez ou outra, retomávamos, de uma nova direção, o circuito familiar: da USP ao clube, à casa dos pais, à Rua Augusta, e de volta para sua casa. O que se mostra aqui — talvez possamos pensar assim — é que os caminhos pela cidade são percorridos sob uma outra significação além da de passearmos ou conhecermos novos locais. O circuito de deslocamento passou a incluir novos endereços, novas passagens, mas o significado dos túneis ou da USP insere-se igualmente em sua busca pelo circuito tradicional. O que se revela é que, não importa quão perto ou longe estivéssemos de tal circuito, o significado de percorrer os caminhos junto de Sílvia, até então, serviam a um outro propósito. Uma outra busca sua por inserção familiar. Vejamos isso em um passo um tanto mais largo: Paris.
Alguns anos mais tarde, tive oportunidade de acompanhá-la numa viagem de 23 dias à Europa. Essa viagem me parece bastante ilustrativa do acompanhamento terapêutico de Sílvia, primeiro porque aqui se impõe a particularidade da clínica do acompanhamento terapêutico em relação aos outros dispositivos de tratamento da rede de Saúde Mental: os pressupostos dessa clínica possibilitam o atendimento em situações de viagem e, também, porque a situação vivenciada por Sílvia e testemunhada por mim me parece paradigmática no tratamento de Sílvia.
É oportuno notar o valor dessa viagem para Sílvia, surpreendente para qualquer compreensão neurótica: menos que conhecer lugares e culturas, Sílvia pretendia ser “chique”, e este era o significante que para ela designava sua família, da qual ela era a própria contradição em sua condição de loucura. Evidenciava-se cada vez mais a necessidade de Sílvia significar seu pertencimento familiar, e a viagem ia configurando-se como mais uma retomada do circuito familiar, o que passava pela rua Augusta e adjacências, tangenciando, assim, mais um dos pontos de circulação de sua família mas, dessa vez, um ponto do qual estava de fato excluída.
Sílvia ficava siderada cada vez que via pessoas com olhos azuis, os olhos azuis do pai e do irmão. Sílvia não tinha olhos azuis, seus olhos eram castanhos. Morria de “inveja” das primas, que ou eram lindas, ou trabalhavam, ou casaram e tiveram filhos. Perguntava freqüentemente se seus pais gostavam dela ou se desejavam o seu mal, não sabia como se comportar na presença deles, sentindo-se agredida e inferiorizada. Uma coisa era certa: todas as pessoas de sua família viajavam muito ao exterior, especialmente à Europa. Seus pais viajavam todos os anos e nessas ocasiões, ela expressava a “inveja” que sentia deles e sua vontade de viajar também.
Sílvia portava em si uma estranheza em relação à família, a aparência e os comportamentos bizarros que a caracterizavam, eram a própria contradição à etiqueta de “chique”, de modo que ficava sem lugar, já que não ser “chique” era equivalente a não ser.
Durante muito tempo, ela dizia ao terapeuta de família que queria viajar ao exterior, mas recuava em seguida com medo e não sustentava seu pedido. Até que o terapeuta de família reconheceu e validou seu pedido aos seus pais, e, em meio a muitas vacilações, Sílvia me pediu que a acompanhasse.
A partir do momento de sua decisão, os preparativos para a realização da viagem tiveram de ser bastante rápidos, já que esse tempo de espera lhe causava muita ansiedade: “Preciso ir logo, ainda não estou lá, mas também não estou mais aqui”.
Na agência de viagens, não sabia para onde queria ir, mas o roteiro deveria incluir “Paris”, para onde os pais sempre iam, onde estava morando uma de suas maravilhosas primas e era muito “chique”. Em nenhum momento foi uma questão para ela quais os lugares a serem visitados do ponto de vista turístico, ou de atrativos naturais, ou de interesse cultural, intelectual ou artístico; ela não fez nenhum tipo de pesquisa precedente que identificasse os locais e que pudesse ser um critério de escolha. Pretendi intervir o mínimo em suas escolhas, mas por falta de escolha — sua única condição fora passar por “Paris” —, orientei a viagem para países em que a língua facilitasse nosso acesso e deixei que seus pais cuidassem do restante.
O primeiro impasse que enfrentamos foi a indignação de Sílvia ao constatar que eu cobraria honorários para acompanhá-la durante a viagem, já que ela entendia que, uma vez que seus pais arcariam com minhas despesas, ela me oferecia gozar por meio dela do dinheiro de seus pais. O pagamento, instaurando a dimensão da relação de trabalho e a regra que nortearia a viagem, promovia uma barreira ao gozo do Outro. Sílvia ameaçou cancelar a viagem, sustentei o pagamento, a regra, meu lugar profissional, o que estabelecia posições, a viagem seria para ela e eu a acompanharia; caso contrário, a viagem seria para mim, e ela seria objeto de gozo. Iniciamos, assim, a construção de uma viagem possível para Sílvia e, mais do que isso, a tentativa de uma localização subjetiva em sua família.
Nos dias que antecederam a viagem, Sílvia oscilava entre duas posições, por um lado perguntava-me insistentemente se eu iria deixá-la aproveitar ou se seria eu quem iria aproveitar em detrimento dela; por outro lado, afirmava que a Europa era maravilhosa, pois todos diziam isso e, portanto, a viagem seria muito boa.
No aeroporto, Sílvia começou a reclamar que não estava aproveitando e a se comportar como “louca”, piorando seu comportamento no avião. Num outro momento, justificou esse comportamento, dizendo que queria chamar a atenção, queria que todos a notassem.
Sílvia ficou agressiva como em muitos anos não acontecia, não tinha diálogo possível, comportava-se de maneira similar ao início do acompanhamento. Os primeiros três dias de viagem foram muito difíceis e eu estava avaliando se valeria a pena continuar, diante de seu sofrimento.
Logo no início da viagem, tropecei e caí na calçada. Sílvia “colou” nesse acontecimento, repetindo algumas vezes: “Você caiu”, identificada como objeto dejeto, deixada cair dos significantes; nada a representava, o que equivale a dizer que ela é representante de nada. Ela não conseguiu fazer-se representar pelo significante “chique”, ficando fixada no fora de sentido. Calou-se. A saída pelo significante no delírio só foi possível porque eu estava ali, sustentando-a na transferência.
Passou duas tardes inteiras dormindo, acordando apenas para jantar, respondendo à minha insistência. Nessas duas saídas para jantar, eu contava a ela o que eu havia feito durante a tarde e mostrava cartões postais para que ela visse os passeios que perdera. Ela interessou-se, começou a achar que estava perdendo os passeios e precisava aproveitar. Na terceira noite fomos a um restaurante “chique”, um lugar muito bonito, onde tivemos um jantar muito agradável. A oportunidade de rearranjar o significante “chique” na cadeia reinstalou a possibilidade de diálogo.
Desde que chegara na Europa, Sílvia estava indignada que lá também sofresse, repetindo isso muitas vezes. Acreditava que se a Europa era maravilhosa como todos diziam, então lá não deveria existir sofrimento, e, no entanto, ela estava lá e estava sofrendo. Ela insistia, decepcionada, que achava que na Europa as coisas seriam diferentes, mas era interessante que o tempo todo buscasse referências conhecidas, familiares — como Mc Donalds, Hard Rock, Dunkin’ Donuts, pratos conhecidos nos cardápios — e que desvalorizasse o que provava de diferente, mostrando sua dificuldade de assimilar a diferença. As mudanças para ela eram vividas com muita violência, levou uns três dias para adaptar-se à novidade da viagem.
A constituição do sujeito passa por duas operações: na primeira, alienação, o sujeito faz a entrada na linguagem, como falado pelo Outro, alienado ao desejo do Outro. O psicótico não ascede à segunda operação, de separação, “parir-se” como sujeito falante, que equivale à entrada no discurso, que faz o sujeito neurótico.
Dizer que o psicótico não entrou no discurso é o mesmo que dizer que o significante não representa o sujeito para outro significante. A palavra não funciona como morte da coisa, apontando para a castração.Se do Outro vem a afirmação que “a Europa é maravilhosa”, isso deve querer dizer exatamente isso, é o efeito de colagem entre palavra e coisa, que se manifesta na psicose. Sílvia esperava ser notada no aeroporto como maravilhosa, durante a viagem, exibia o dinheiro, cartão de crédito e de viagem, como se fosse a única no mundo que os possuísse. Quando um significante representa o sujeito para outro significante, há uma perda e o neurótico vai se virar em torno dessa falta constitutiva. Não se sentir maravilhosa na Europa, ao invés de apontar a falta para Sílvia, lançou-a no encontro com o nada, com o buraco de significação. Quando a lógica em que o psicótico se apóia falha, ele se encontra com a perplexidade. Foi o que aconteceu com Sílvia nos primeiros dias de viagem, até que pudesse encontrar uma saída suportada pela transferência com a acompanhante e restabelecer a cadeia de significantes no delírio: num primeiro momento, Sílvia estranhava as pessoas ao redor e me acusava de provocar-lhe algum mal, parecendo uma reação a uma irrupção de real. Num outro momento, construiu a explicação delirante de que seus conhecidos em São Paulo, com “inveja” de sua viagem, impediam-lhe de aproveitar e faziam-na sofrer, mesmo à distância. A partir dessa certeza delirante, apaziguou-se e conseguiu desfrutar de momentos agradáveis e reconhecer aspectos positivos e negativos da viagem.
Diante do encontro com o buraco no simbólico, Sílvia experimentou a perplexidade, mas não sucumbiu ao surto, uma vez que contava com o suporte transferencial da acompanhante e algo do delírio pôde operar. A metáfora delirante[7] faz suplência à metáfora paterna, “conferindo sentido à existência do indivíduo como sujeito, na medida em que lhe dá alojamento no significante” (Quinet, 2000, p. 110). Funciona como uma pseudometáfora paterna, assim como uma prótese que necessita de manutenção para funcionar. Lacan utiliza como metáfora o banquinho de três pés: é como se o quarto pé estivesse lá, o banquinho mantém-se equilibrado, mas se houver um sobrepeso, capenga.
Já em Paris, Sílvia precisou carregar sua mala pesadíssima um lance inteiro de escadas e, com humor, brincou: “Se o braço não caiu agora, então não cai mais!”. É interessante notar a mudança de posição em relação ao início da viagem, quando esperava que eu fosse carregar sua mala. Sílvia conseguia ocupar-se de suas coisas, eu assumia apenas as tarefas mais complexas, como fechar as contas nos hotéis e fazer check-in, momentos em que Sílvia ocupava-se em verificar se alguém teria mexido em suas malas. Percebi um enorme amadurecimento em Sílvia e como ela se sentia satisfeita com suas conquistas. Sílvia disse: “Eu consegui, mas sozinha não teria conseguido”.
A última semana de viagem trouxe uma novidade: integramos uma excursão pela Itália, na qual em poucos dias percorremos várias cidades. A novidade e o encontro com o grupo desorganizaram Sílvia, que ficou novamente muito agressiva comigo, agindo como “louca”. No grupo havia brasileiros, argentinos e espanhóis. A língua estrangeira não nos protegia mais: a partir de então haviam pessoas com quem nos encontrávamos todos os dias e que compreendiam as nossas conversas e, ainda, que conversavam conosco; isso sem falar nos horários rígidos das saídas do ônibus em todas as paradas, do fato de termos de acordar às sete horas da manhã todos os dias e de termos uma guia de turismo nos orientando constantemente. Precisei ser firme com Sílvia e responsabilizá-la pela decisão de como se apresentaria àquelas pessoas; ela conseguiu controlar-se e, passado o primeiro momento de adaptação, conseguiu novamente aproveitar a viagem. No início da excursão, Sílvia repetia que preferia quando éramos só nós duas.
Os casais brasileiros notaram que Sílvia era muito ansiosa, mas em nenhum momento louca; quando perguntavam o que fazia, ela respondia que estudava pintura; perguntavam se éramos irmãs e ela respondia que não; perguntavam se éramos amigas e ela respondia que sim. Em nenhum momento precisei me identificar como terapeuta dela. Enfim, os brasileiros “adotaram” um pouco Sílvia, tratando-a de forma muito afetiva e fazendo brincadeiras com ela. Sílvia sentiu-se muito bem com isso e logo se organizou novamente, conseguindo aproveitar da companhia das pessoas, “descolando-se” um pouco de mim. Sílvia estava mesmo “descolada” no final da viagem e era perceptível algum efeito de laço social.
Na penúltima noite de viagem fizemos um passeio por uma colina, num caminho que levava às fortalezas, de um lado se avistava o mar e do outro o vale. Sílvia estava muito leve, feliz com a viagem, conseguia ponderar prós e contras da fase em que viajamos sozinhas e da fase em excursão.
Olhando para uma reentrância no muro da fortaleza, Sílvia perguntou para que aquilo teria servido, não lembro o que respondi, mas ela disse que faria ali um forno de pizza, rimos muito, ela via comida em tudo. Disse, então, a ela que cada pessoa interpreta as coisas de uma forma particular, e que enxergar ali um forno de pizza era sua forma particular, assim como entrar em todos cafés, restaurantes, supermercados, confeitarias e sorveterias pelos quais passamos durante a viagem.
Em Paris, havia um recepcionista de hotel, simpático e extrovertido, que conversava muito conosco. Excitada e ansiosa, Sílvia perguntava-me se tinha uma bola no nariz dela, se uma orelha estava maior do que a outra, se o recepcionista havia entrado em seu quarto à noite, se eu entrara com ele, se o terapeuta de família colocou uma filmadora em seu quarto. Encontrei a seguinte anotação em meu diário de viagem:
— O corpo.
— Os Outros entram.
— Ela oferece um espetáculo.
Esse parece ser o circuito em que Sílvia se apóia. Experimenta a excitação no corpo de forma indiferenciada, o gozo no corpo sem palavras, que levam à sua fragmentação, numa posição esquizofrênica em que ela precisa da imagem do outro para integrar-se. Mas há uma passagem para a posição paranóica, indicando a possibilidade de representar-se; o Outro goza de seu corpo e ela, por sua vez, goza oferecendo um espetáculo ao Outro, dando assim consistência a esse Outro, que ela barra com suas construções atrás da porta e os bilhetinhos espalhados por sua casa pedindo que parem de estragar suas coisas. Barrar minimamente o Outro possibilita a ela confrontar-se com a falta constitutiva do humano, e questionar-se, com muita dificuldade, sobre as incertezas relativas ao envelhecimento, à morte, à solidão e ao futuro.
Certa vez — algum tempo antes de nossa viagem —, Sílvia havia feito a seguinte analogia sobre seu momento: “É como se eu estivesse num buraco, agora coloquei a cabeça para fora, mas ainda não saí, estou olhando para fora, quero sair, mas lá fora é tão grande, dá um medo!”. Do quarto a Paris, Sílvia tem se aventurado “lá fora”.
Gostaria de deixar claro, que não pretendo transmitir, assim, nenhuma idéia, menos ainda nenhum ideal, de aquisição contínua de autonomia, num sentido de desenvolvimento, ou ampliação crescente de circulação. Não há continuidade. Sílvia vive seus fluxos, experimenta sensações, erra e se orienta, cola e descola, às vezes decola, aterra e erra, copia e cria, escreve e pinta. Sílvia trabalha, trabalha para “se parir”[8], para sair do buraco.
A experiência no acompanhamento terapêutico permite a ela, apoiada na transferência, constituir pontos de ancoragem, construir amarrações de sentido que lhe sirvam de referência para existir.
Para concluir, não posso deixar de destacar que, durante toda a viagem, Sílvia perguntava se seus pais teriam estado neste ou naquele local. Ficou muito satisfeita quando, em Roma, lembrou-se de ter visto uma foto deles em um daqueles restaurantes. Procurava, insistentemente, reconstituir a viagem dos pais para inserir-se no mesmo contexto. É Sílvia quem indica o caminho. Trata-se, para ela, de construir uma suplência para as questões relativas à filiação e às origens que signifique sua existência. Se Sílvia insiste em refazer o percurso familiar, para aí se inserir e localizar, menos do que para colar, serve para descolar, quanto mais eficiente a suplência, mais condições ela cria para a independência da presença maciça e concreta dos pais. Ao mesmo tempo, mais condições ela cria para poder aproximar-se deles sem sentir-se aniquilada por suas presenças. Será que era a essa “operação” que sua mãe se referia, ao dizer ao terapeuta de família, que ele teria de fazer uma cirurgia, pois elas eram como siamesas? A separação, nesse sentido, é a direção necessária para a desalienação e para a emergência do sujeito.
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Souza, Neusa S. A psicose — um estudo lacaniano. 2.a ed. Rio de Janeiro: Revinter, 1999.
Tenório, Fernando. A psicanálise e a clínica da reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001.
—. A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais — história e conceitos. História, Ciencia e Saúde (on line), jan. 2002, vol. 9, n.o 1. Disponível em: <http://www. scielo.br/scielo.php>. Acesso em junho de 2006.
[1] Artigo publicado in Equipe de AT’s de “A CASA” (org.). Textos, Texturas e Tessituras no Acompanhamento Terapêutico. São Paulo, Hucitec, 2007.
[2] Cito Tenório, acerca do agenciamento social da loucura: “Penso que o essencial da Reforma são as práticas de cuidado destinadas aos loucos, visando à manutenção do louco na vida social e visando a que ele possa, nos constrangimentos impostos por sua condição psíquica, exercer-se como sujeito. A isso chamo de clínica. E a clínica é uma ação social. [...] A expressão «‘problema social da loucura» e a atribuição à psicose de um caráter refratário ao laço social não contêm juízo de valor nem engendram algum tipo de cinismo. A chamada loucura é, para o corpo social, um problema. Em certa medida, a loucura é justamente aquilo que aparece no corpo social como não redutível a outras categorias que tentam dar conta da diferença, dar conta do que aparece como incomodamente dissonante. Pode-se mesmo dizer que aquilo que aparece na cultura como diferença irredutível é chamado de loucura — formulação que já nos faz perceber que a pretensão de harmonizar loucura e sociedade é problemática em si mesma. [...] A adesão aos valores da Reforma, contra a segregação social da loucura, não implica qualquer romantização da loucura e não deve nos impedir de reconhecer a tensão contida no binômio sociedade-loucura. Reconhecer aí a base de nosso trabalho é um passo importante para que possamos fazê-lo com eficiência e para que possamos orientareticamente nossas ações. É nessa tensão mesma que trabalhamos — somos, à nossa revelia ou não, agenciadores dessa tensão” (2002, internet).
[3] Conferência de abertura da jornada “As Psicoses e Seus Tratamentos Possíveis” (São Paulo, 2005).
[4] Cito Quinet, acerca da paranoização na esquizofrenia: “Nessas duas formas de psicose o que encontramos em comum, e o que é mais importante, é que não existe barreira ao gozo do Outro, seja enquanto corpo, seja enquanto um Outro personificado. Essa característica comum torna possível a passagem de uma para outra, entre paranóia e esquizofrenia fazendo surgir na clínica formas mistas, a exemplo do caso de Schereber, que Freud afirma tratar-se de demência paranóide. [. . .] A passagem da esquizofrenia à paranóia ou, em outros termos, a estabilização de um delírio implica a produção de uma suplência da metáfora paterna, operação que não se realizou, e corresponde a uma transladação do gozo do corpo para um gozo localizado num Outro subjetivado, em alteridade em relação ao próprio sujeito. A partir daí, podemos evocar a questão da transferência, em geral na psicose e em particular na esquizofrenia, no sentido em que a emergência da transferência implica uma paranoização. O analista aparece, então, como um Outro de uma das formas da paranóia: como perseguidor, objeto da erotomania ou alguém que trai o sujeito, colocando o analista em situação bastante difícil” (2000, p. 116).
[5] Quinet diz que “o esquizofrênico não chega a fazer com que a linguagem morda seu corpo, ou seja, a fazer com que seus órgãos entrem na dança dos significantes, daí o seu corpo ser levado ao despedaçamento [. . .], o corpo é levado a se despedaçar no real. Se no neurótico o corpo simboliza o Outro, no esquizofrênico o corpo é o Outro, o corpo como lugar de gozo, sem qualquer mediação” (1999, p. 101). O autor acrescenta que “a constituição do delírio, quando ele ocorre no caso da esquizofrenia [. . .], não consegue localizar completamente o gozo no campo do Outro [. . .]. Na esquizofrenia não há uma localização total do gozo no campo do Outro, o gozo retorna ao sujeito nas alucinações, fenômenos corporais, etc. [. . .] No caso da esquizofrenia, a ausência de um S1 [significante mestre] promove uma dispersão dos significantes, manifesta também no delírio” (1999, p. 103).
[6] Lacan assinala como próprio da psicose o termo Verwerfung, foraclusão do significante Nome-do-Pai no Outro, dizendo que “no ponto em que é [...] chamado o Nome-do-Pai, pode pois responder no Outro um puro e simples furo, o qual, pela carência do efeito metafórico, provocará um furo correspondente no lugar da significação fálica. [...] É a falta do Nome-do-Pai nesse lugar que, pelo furo que abre no significado, dá início à cascata de remanejamentos do significante, de onde provém o desastre crescente do imaginário, até que seja alcançado o nível em que significante e significado se estabilizam na metáfora delirante” (1958, p. 564).
[7] Souza (1999), p. 98. Estranho, entendido aqui, no sentido que assinala Rabinovitch: “A própria marca daquilo que foi cortado, excluído, nunca mais se encontrará; o que fará as vezes de marca será o estranho, o heterogêneo. A foraclusão [...] não define apenas um modo de defesa do sujeito, localizável no aparelho psíquico, ao lado dos outros mecanismos, não define apenas a operação de uma negação constitutiva do sujeito, mas instaura um lugar exterior ao sujeito e distinto daquele do retorno do recalcado: o «fora»” (2001, p. 21).
[8] “Separare, separar, irei logo ao equívoco do se parare, se parer, em todos os sentidos flutuantes que tem em francês, tanto também vestir-se, quanto defender-se, munir-se do necessário para pôr-se em guarda, e irei mais longe ainda [...], ao se parere, so engendrar-se, de que se trata no caso. Como, desde este nível, o sujeito terá que se procurar? — aí está a origem da palavra que designa em latim o engendrar, [...] pôr no mundo” (Lacan, 1964, p. 202).