Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade
Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social
PUC-SP
e
Fórum do Campo Lacaniano - São Paulo
e
LATESFIP – USP
convidam para palestra de
Bernard Nominé
Psiquiatra e Psicanalista, AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – França. Docente do Collège de Clinique Psychanalytique du Sud-Ouest – Formation Clinique du Champ Lacanien (France). Ancien interne des hôpitaux psychiatriques de la région Aquitaine (France). Docente do Collegio di Clinica Psicoanalitica – Formazioni cliniche del Campo Lacaniano (Roma – Italia). Docente do Colegio de Psicoanálisis de Madrid (España).
O Amo na cultura de hoje
Debatedor: Christian Dunker (USP e EPFCL-Brasil)
Coordenação: Raul Albino Pacheco Filho (PUCSP e EPFCL – Brasil)
Tradução: Dominique Fingermann (EPFCL – Brasil)
Data: 1 de dezembro de 2011 (5ª feira) às 20 horas
Local: PUC-SP, R. Monte Alegre 984 (Perdizes, São Paulo – SP), Auditório 239, 2º andar (prédio novo)
ENTRADA FRANCA
Bernard Nominé está em São Paulo a convite do Fórum do Campo Lacaniano – São Paulo, onde participará de eventos nos dias 3 e 4 de dezembro de 2011. Informações e inscrições (11) 3063-3703 e 3057-1743.
Filed under: notícias | Tags: Clínica, DSM IV, estatística, manifesto por uma psicopatologia clínica, Psicanálise, transtornos
MANIFESTO POR UMA PSICOPATOLOGIA CLÍNICA NÃO ESTATÍSTICA
Através do presente texto, os profissionais e organizações signatárias, pronuciam-se a favor de criterios clínicos de diagnostico e assim, contra aquilo que é imposto no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, ou DSM IV, pela American Psychiatric Association como grelha única de critério para a clínica da sintomatologia psíquica. Desejamos partilhar, debater e criar consensos em torno do logos clínico que diga respeito à pathos psíquica – sintomatologia do sofrimento, e não doença – a fim de questionar a noção de saúde psíquica estatística ou normativa, assim como as imposturas clínicas e intelectuais em que consistem as noções de distúrbio perturbação e doença mental. Queremos também denunciar a imposição de um tratamento único – terapias tipificadas para perturbações formatadas – desprezando diferentes quadros teóricos e estratégias terapêuticas assim como a liberdade de escolha do paciente. No momento atual assistimos a uma prática clínica cada vez menos dialogante, mais indiferente às manifestações de sofrimento psíquico e agarrada a protocolos e tratamentos paliativos das consequências e não das causas. Como diz G. Berrios (2010) «Enfrentamos uma situação paradoxal em que se pede aos clínicos que aceitem uma mudança radical na forma como desenvolvem o seu trabalho (pondo de lado o saber acumulado pela sua própria experiência a favor dos ditames de dados estatísticos impessoais), quando na realidade as certezas clínicas de hoje são dadas por dados estatísticos de teóricos, gestores, de empresas (como o Cochrane Institute) e por investidores que, financiando apenas o que dá lucro, determinam que investigações se realizam ou não. Em consequência, defendemos um modelo de saúde em que a palavra seja um valor a promover e em que cada paciente seja considerado na sua singularidade. A defesa da dimensão subjectiva implica a valorização do que cada um põe em jogo para tratar o que nele mesmo se revela insuportável, estranho a si mesmo ainda que ao mesmo tempo familiar. Manifestamos a nossa repulsa por políticas assistencialistas que visem a segurança em detrimento dos direitos e liberdades. Por políticas que, “para o bem do paciente” e sob o pretexto de boas intenções, o reduzem a um cálculo do seu rendimento, a um factor de risco ou a um índice de vulnerabilidade que debe ser eliminado; por vezes praticamente à força. Em qualquer disciplina se usa uma teoria na abordagem do seu objecto. Este saber, limitado, não deberá confundir-se com A Verdade na medida em que actuaria como ideologia ou religião, onde qualquer pensamento acontecimento, ou até a linguagem utilizada, estariam ao serviço de forçar o re-ligare entre saber e verdade. O clínico com um certo espírito científico sabe que a sua teoria é aquilo a que Aristóteles chamaria um organin, isto é, uma ferramenta para abordar uma realidade sempre mais plural e mutável, e onde as categorias propostas deixam espaço à manifestação dessa diversidade, permitindo por essa via a expansão teórica e prática. Esta concepção opõe-se à ideia de um cânon, no sentido daquilo que necessária e obrigatoriamente, pela prescrição, as coisas são, e do modo como terão que funcionar. Todos sabemos as consequências desta posição que, começando no orientacional, passa pelo normativo, o prescritivo, para finalmente converter-se no coercivo. É aqui que o saber se transforma num exercício de poder sancionador, num sentido lato do que obedece ou desobedece ao cânon em ordenação da subjetividade à Ordem Social reclamada pelos mercados. Tudo para o paciente sem o paciente. Um saber sem sujeito é desde logo um poder sobre o sujeito. J. Peteiro chamou-lhe Autoritarismo Científico. Por tudo isto manifestamos a nossa oposição à existência de um Código de Diagnóstico Único Obrigatório e Universal. Por outro lado, o modelo ateórico de que o DSM faz gala, e que quer confundir com objectividade, evidencia antes de mais a sua falha epistemológica. Basta recordar a sua indefinição sobre o que pode entender-se por distúrbio ou por saúde psíquica. Os conteúdos da taxonomia psiquiátrica respondem muito mais a acordos políticos que a observações clínicas, o que constituiria um problema epistemológico gravíssimo. Quanto ao método classificativo do DSM, verificamos que se pode classificar, agrupar ou amontoar muitas coisas sem que com isso se estabeleça uma entidade nosológica num campo específico. Por último e na mesma linha, a estatística utilizada no DSM assenta numa base débil, a ambiguidade do objecto sobre a qual opera, isto é, o conceito de perturbação mental. A estatística apresenta-se como uma técnica, uma ferramenta que pode ser posta ao serviço de múltiplas causas, e de todo o tipo. E são pessoas quem utilizam os índices e os valores de base da curva estatística e que decidem o tamanho da moldura do quadro onde se vai quantificar e interpretar posteriormente. Neste conceito de confusão e empobrecimento conceituais a próxima publicação do DSM-V pressupõe uma clara ameaça: ninguém ficará de fora daquilo de que se ocupa, do que faz um doente. Não restará espaço para a saúde, enquanto mudança, mobilidade, complexidade ou multiplicidade de formas. Todos doentes, todos perturbados. Qualquer manifestação de mal-estar será rapidamente transformada em sintoma de uma perturbação que necessitará ser medicalizada para toda a vida. É este o grande salto realizado sem qualquer rede pistemológica: da prevenção à predição. Quadros de diagnóstico mais abrangentes para as perturbações existentes ou novos diagnósticos que poderão ser absolutamente correntes na população geral. Disto nos adverte Allen Frances chefe do grupo de trabalho para o DSM-IV na sua obra Opening Pandora’s Box: The 19 Worst Suggestions For DSM V. Referindo-se às novas perturbações incluídas no DSM-V, este autor cita alguns dos novos diagnósticos problemáticos: a síndrome de risco de psicose é ” certamente a mais preocupante das sugestões; a taxa de falsos positivos será alarmante: 70% a 75%». A perturbação mista de ansiedade depressiva. O distúrbio cognitivo menor, “está definido por sintomas sem especificidade (…) o critério de diagnóstico foi fixado de modo a abranger enormes 13,5% da população»). A compulsão alimentar; a perturbação disfuncional de caracter com disforia, a parafilia coerciva, a hipersexualização etc. Aumenta portanto o número de perturbações assim como o campo semântico de muitas delas. É o caso da famosa perturbação de hiperactividade com déficit de atenção, já que se permite o diagnóstico baseado apenas na presença de sintomas, sem que haja incapacidade; além disso o número de sintomas requerido para o diagnóstico de adultos foi reduzido para metade. O diagnóstico de PHDA também contempla os casos de autismo, o que implicaria a criação de duas falsas epidemias e promoveria o aumento do consumo de estimulantes numa população especialmente vulnerável. Se ao tratamento estatístico juntarmos a heterogeneidade temática dos grupos de trabalho, que se multiplicam e vão da identidade de género à adaptação dos impulsos, passando pela hipersexualidade, as alterações de humor, etc. é forçoso verificarmos que estas classificações internacionais querem-se totalmente desligadas de qualquer referencial teórico de modo a escusaram-se ao controle no plano do rigor espistemológico. Não obstante, não consideramos que as classificações e tratamentos possam ser neutros em relação às teorias etiológicas e ao mesmo tempo ser neutrais a respeito da ideologia do controle social e de interesses que não são os clínicos. Paul Feyerabend, em Science The Myth and its Role in Society (1975) diz-nos: «Basicamente não existe diferença entre o processo que conduz ao enunciado de uma nova lei científica e o processo que precede a uma nova lei na sociedade». Parece que, prossegue este autor em Farawell to Reason, «O mundo em que vivemos é demasiado complexo para ser compreendido por teorias que obedecem a princípios (gerais) epistemológicos. Os cientistas e os políticos – ou qualquer um que tente compreender e/ou influir no mundo –, tendo em conta esta situação, violam regras universais, abusam dos conceitos elaborados, distorcem o conhecimento já obtido e boicotam constantemente as tentativas de impor uma ciência no sentido dos nossos epistemólogos. Para terminar queremos chamar a atenção para o perigo que constitui para a clínica da sintomatología psíquica, o facto dos
novos clínicos estarem formatados, deliberadamente, na ignorância da psicopatología clássica, pois esta responde à dialética entre teoria e clínica, entre saber e realidade. A psicopatologia clínica que já não é ensinada nas nossas universidades nem nos nossos programas de formação (…). Não obstante, a instrução é feita no modelo da rescrição psicofarmacológica: universalização da prescrição para todos e para tudo, que em nada se diferencia de um distribuidor automático de rótulos e de medicação. O que denunciamos é o desconhecimento dos fundamentos da psicopatologia, um obscurecimento importante na hora de conhecer o paciente e, em consequência, uma mais que considerável limitação na hora de diagnosticar. Na medida em que o conhecimento é a forma mais ética que temos de abordar uma realidade plural, a coexistência de diferentes saberes sobre a complexidade do ser humano, não é um problema. Por tudo isto, propomos levar a cabo acções com o objectivo de pôr um limite a todo este processo crescente de classificação internacional, e de trabalhar com processos de classificação que tenham uma base sólida em psicopatologia e que, portanto, advenham exclusivamente da prática clínica.
Barcelona 14 de Abril de 2011
stopdsm@gmail.com
SÃO PAULO – Sete hospitais psiquiátricos da região de Sorocaba, a 97 km da capital paulista, estão sendo investigados pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Em um deles, o Hospital Vale das Hortênsias, três pacientes morreram num único dia, em 14 de junho passado. Um deles estava doente, mas os outros dois, segundo denúncia de funcionários, morreram por hipotermia. Imagens gravadas por funcionários mostram pacientes encolhidos, enrolados em cobertores e alguns, sem roupa.
- Blusa, essas coisas assim, que eram necessárias para o frio, é contado para o dia. Se eles se sujarem, ficarem molhados, eles vão ficar o dia inteiro e a noite inteira molhados. Tem dias que eles ficam até sem tomar banho por não ter roupa para vestir – conta uma ex-funcionária.
Nos últimos 4 anos, segundo denúncia do Fórum da Luta Antimanicomial, 459 pacientes morreram.
O Hospital Vale das Hortênsias tem 465 leitos pagos com dinheiro do SUS, para pacientes com transtornos mentais. Doenças respiratórias estão entre as principais causas. Pela lei, esses hospitais têm de ter médico 24 horas por dia e um enfermeiro para cada 240 leitos.
Procurada, a direção do hospital disse que as mortes num único dia foram “lamentável coincidência”, havia médicos e não fazia frio.
Na estação meteorológica de Piedade a temperatura mínima foi de 10 graus e a máxima de 15 graus no dia das mortes. O hospital fica no alto de uma serra.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2011/07/11/secretaria-de-direitos-humanos-investiga-sete-hospitais-psiquiatricos-na-regiao-de-sorocaba-sp-924875434.asp#ixzz1STd9gPVV
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SÃO PAULO – Franco da Rocha carrega o estigma de ter abrigado um dos maiores hospitais de isolamento psiquiátrico de São Paulo. O município de 120 mil habitantes, localizado na Grande São Paulo, ainda é visto como um local onde doentes mentais devem ser deixados, longe do convívio familiar. O município abriga dezenas de clínicas clandestinas que confinam pessoas com algum tipo de distúrbio mental. O hospital do Juquery, complexo psiquiátrico que chegou a abrigar 14 mil pessoas na década de 60, tem hoje 210 pacientes.
Pelo menos 13 destas clínicas já foram identificadas pelo Ministério Público. Uma lei federal, de 2001, proibiu o confinamento de doentes com distúrbios mentais crônicos em hospitais, determinando a reinserção nas famílias, sob supervisão de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Com a eliminação da maioria das vagas em instituições públicas, multiplicaram-se clínicas clandestinas que mantêm seus pacientes vagando praticamente sem assistência ou, simplesmente, amarrados.
Situadas em locais afastados, escapando à fiscalização, a maioria destas clínicas oferecem espaços pequenos, sem sequer uma tevê. Os pacientes comem, tomam remédios e dormem. Muitas vezes, o vaso sanitário é um balde.
Os doentes estão ali porque seus parentes pagam para não tê-los em casa. Em muitos casos, sem saber, eles próprios custeiam o local com o benefício que recebem da Previdência Social, em geral equivalente a um salário mínimo.
O “pacote de serviços” inclui consultas, exames, alimentação e até lavagem de roupas. Mas não há médicos nesses locais. No máximo, um auxiliar de enfermagem. E os proprietários, na maioria, não têm diploma de Medicina ou outro curso na área da saúde. Ao contrário, boa parte deles atuou como segurança ou vigilantes em órgãos ou autarquias públicas.
A situação começou a ser apurada há um ano, quando a promotora de Justiça Ana Paola Ferrari Ambra chegou à Promotoria de Franco da Rocha. De lá para cá, 14 inquéritos civis foram abertos e estão em andamento para apurar o funcionamento irregular dessas casas.
Os doentes, segundo ela, são de várias cidades paulistas. Num mesmo espaço, essas clínicas abrigam qualquer tipo de pessoa que a família quer ver isolada, incluindo idosos usuários de crack.
- São egressos de internações de hospitais psiquiátricos, a maioria de famílias de baixa renda. Alguns locais chegam a manter, juntos, idosos, doentes mentais e até pacientes acamados por outras doenças – conta Ana Paola.
Para se ter uma ideia, numa destas clínicas uma mulher chegou a receber, por sonda, uma mistura de arroz e feijão peneirados. Segundo a promotora, a paciente morreu. . A Vigilância Sanitária do estado flagrou remédios aplicados na veia sem qualquer prescrição ou identificação das substâncias.
Das clínicas já vistoriadas pela promotoria e pela Vigilância Sanitária Estadual, três terão que ser fechadas e sete tentam uma licença para funcionar como residência coletiva. Por enquanto, todas seguem funcionando.
- A situação é grave. Nas casas que serão fechadas, os doentes estão em processo de transferência. Mas uma casa que tinha 37 pessoas quando foi vistoriada, em vez de transferir esses doentes, aumentou o número para 73 internos. Isso foi constatado pela Vigilância Sanitária em março passado – diz a promotora.
A sensação dos donos destas clínicas, segundo a promotora, é a mesma dos que cometem qualquer tipo de irregularidade: têm a sensação de impunidade, acompanhada da certeza de que a fiscalização é difícil.
A pedido do Ministério Público, a Diretoria Regional de Saúde do Estado de São Paulo deve avaliar a condição de cada um dos pacientes. Os laudos ainda não ficaram prontos.
- Alguns têm a ousadia de dizer que no local funciona uma pousada – afirma a promotora.
Para escapar da fiscalização, as clínicas mudam de nome e de endereço com facilidade, carregando junto os pacientes.
Ana Paola diz que os pacientes com alguma noção do que ocorre pedem ajuda para sair e perguntam por algum parente.
- “Me tira daqui”, “Meu filho não vem mais me visitar” são as frases que mais escutamos. Tem uma paciente que foi internada num desses lares clandestinos por vizinhos depois que a mãe morreu – afirma.
Há suspeita de que à noite, quando os cuidadores e auxiliares de enfermagem encerram seus expedientes, alguns pacientes recebam medicação para dormir. Numa das clínicas vistoriadas, parentes dos proprietários afirmam que não há necessidade de profissionais no turno da noite, pois “todos dormem a noite inteira”.
Mesmo que sejam regularizadas pela Vigilância Sanitária, as sete clínicas identificadas pelo Ministério Público terão de ter seus internos avaliados por um psiquiatra indicado pela Diretoria Regional de Saúde. Na avaliação da promotora, a maioria dos casos configura internação contínua, e não residência terapêutica, como determina a lei.
- São residências coletivas, mas o paciente não pode sair – questiona Ana Paola.
Ou seja, pela Constituição, todos tiveram o direito de ir e vir cerceados.
Procurada, a Vigilância Sanitária estadual informou, por nota, que qualquer estabelecimento, antes de iniciar suas atividades, deve solicitar licença de funcionamento sanitário, especificando qual a atividade que irá realizar”. Há quatro entidades em processo de regularização em Franco da Rocha. “As ações de vigilância sanitária são processos contínuos de monitoramento e avaliação de risco sanitário”, diz a nota da Vigilância do estado.
Um estudo realizado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, divulgado no Congresso de Psiquiatria, em 2010, mostrou que transtornos mentais atingem, ao longo da vida, 45% da população da Grande São Paulo. A depressão é a doença mais comum – atinge 18% dos entrevistados -, seguida pelas fobias específicas (12,4%) e pelo abuso e dependência de álcool e drogas (9,8%).
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2011/07/11/clinicas-psiquiatricas-clandestinas-proliferam-em-franco-da-rocha-na-grande-sp-924875461.asp#ixzz1STYqKaw0
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Mais do que não se saber o que fazer com o crack, não se sabe falar dele. Antonio Lancetti*
Com honrosas exceções, como a matéria de Eduardo Duarte Zanelato publicada
pela revista Época, caderno São Paulo, no dia 27 de março passado e
intitulada “Elas tiram as pedras do caminho, a rotina das agentes de saúde
que trabalham na cracolândia para convencer os usuários de drogas a se
tratarem da dependência”, a mídia tem se dedicado a publicar matérias e
programas televisivos sensacionalistas e irresponsáveis a respeito do crack.
Muitas equipes de reportagem acompanharam o trabalho de agentes de saúde,
enfermeiros e médicos que conseguem romper o cerco que existe entre esses
intocáveis e o resto da sociedade. Foram testemunhas da persistência desses
trabalhadores do SUS, do conhecimento de histórias de pessoas com vidas
difíceis, quando não escabrosas, que são cuidados, que pedem ajuda. Mas não
deram uma linha a respeito.
Esses repórteres conheceram homens, mulheres, jovens e crianças que deram um
curso inesperado a suas vidas, e estão sendo atendidos pelas equipes de
saúde da família ou pelos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS Álcool e
Drogas e Infantil da Sé, mas preferem divulgar a ideia de que, se você fumar
uma pedra de crack, nunca mais se livrará dela, que a pedra custa cinco
reais e que por dois reais você pode adquirir outra destilada com querosene
ou gasolina chamada oxi. E dá o endereço: Rua Dino Bueno com Helvetia ou seu
entorno chamado “cracolândia paulistana”.
Depois da carga midiática, a população flutuante que frequenta a região dos
Campos Elíseos e adjacências aumentou significativamente. Se durante a
semana há centenas de pessoas nas ruas usando crack, durante o fim de semana
são milhares. É só conferir.
Em 1979, Gilles Deleuze produziu um texto luminoso que começa afirmando:
“Está claro que não se sabe o que fazer com a droga (mesmo com os drogados),
porém não se sabe melhor como falar dela” (Duas Questões, in SaúdeLoucura 3,
Hucitec, São Paulo, 1991). Hoje, em 2011, também não sabemos o que fazer com
a droga, temos muitas dificuldades para cuidar dos drogados e não sabemos,
ou sabemos muito mal falar dela.
Quando alguém se candidata a tratar, cuidar ou, ilusoriamente, salvar essas
pessoas, passa a fazer parte de um conjunto-droga: produção, distribuição,
consumo, repressão, tratamento… Ser cuidador dessas pessoas requer
adentrar em um território complexo, controverso e fascinante.
De que serve o consultório se eles não vão às consultas? Ou as unidades de
saúde que abrem às 7 horas da manhã, se a vida nas bocadas invade a
madrugada?
Em São Paulo, os profissionais do Sistema Único de Saúde conseguem se
vincular com essas pessoas, baseados na práxis do cuidado, na posição ética
de defensores da vida e de promotores de cidadania. Mas esses profissionais
enfrentam inúmeros obstáculos.
Quanto custa conhecer a biografia de um “noia”? Conseguir que a pessoa tire
seus documentos e adira ao tratamento de sua tuberculose, sífilis ou AIDS?
Ainda mais quando chegam os guardas municipais, com seus famosos rapas e
deixam essas pessoas sem documento e sem remédios. O afeto dos agentes de
saúde colide com o gás de pimenta da GCM Guarda Civil Metropolitana, a
truculência da Polícia Militar, a falta de vagas em abrigos, a ausência de
locais atrativos para homens e mulheres como um dia foi o Boraceia.
Na edição 56 da revista Piauí, Roberto Pompeu de Toledo, em “Crianças do
Crack”, mostrou detalhes da vida de alguns jovens e algumas crianças e o
impasse sistemático da metodologia do Serviço de Atenção Integral ao
Dependente (SAID), hospital psiquiátrico conveniado com a Prefeitura de São
Paulo e que importa um pacote de tratamento norte-americano.
Os meninos e meninas magistralmente descritos nessa matéria lá estão, em sua
grande maioria graças ao vínculo de confiança conquistado pelos agentes de
saúde, médicos e enfermeiros do Projeto Centro Legal e do Programa de Saúde
da Família do Centro da Cidade de São Paulo. Porém, uma vez lá internados,
nessa e em outras clínicas, eles perdem o contato com seus cuidadores. A
metodologia centrada exclusivamente na internação hospitalar não se
relaciona com os universos onde as pessoas vivem e por isso os processos
terapêuticos ficam truncados.
É preciso repetir incansavelmente: não é possível enfrentar de modo
simplificado problemas de tamanha complexidade.
Não é verdade que se você experimenta uma vez uma pedra de crack se tornará
um viciado, essa ideia só funciona como alma do negócio.
Não é verdade que a internação seja “a solução” para o tratamento dos
drogados, se assim fosse não haveria nas clínicas pessoas com 30, 40 ou 50
internações.
Também não é verdade que os verdadeiros toxicômanos mudem com qualquer
metodologia clínica conhecida.
É preciso ter condições sociais, relacionais, biológicas e institucionais
para se transformar em um verdadeiro toxicômano.
Mas cocaína e crack são absolutamente funcionais a uma sociedade que
funciona por falta. O efeito fundamental dessas drogas é o da fissura, da
falta de drogas e é disso que as pessoas se tornam adictos: da falta do
produto e do produto que produz quimicamente falta.
E assim como a sociedade capitalista vive da produção de falta, a mídia vive
da produção de notícia ruim. Os espectadores e leitores, transformados em
voyeurs, consomem horas de TV e páginas de jornais e revistas.
Mas a formação do caráter do cuidador ensina ao mesmo tempo nunca cantar
vitória e procurar os pontos e linhas de vida em qualquer experiência. Vemos
que nem tudo está perdido. Enquanto termino de redigir estas linhas, leio na
Folha de S.Paulo a entrevista de Paulina Duarte, Secretária Nacional de
Políticas sobre Drogas, sob o título “Falar que o País vive epidemia de
crack é grande bobagem”, no qual pode se apreciar serenidade e seriedade.
Mais além de começar a desmontar essas ideias alarmistas e que incitam ao
consumo, a mídia poderia se questionar a respeito da eficácia de sua ação e
divulgar com maior cuidado os resultados positivos do trabalho de tratamento
dos CAPS – Álcool e Drogas, dos consultórios de rua, da equipes de redutores
de danos, dos atendimentos de urgência em hospitais e pronto socorros, etc.
O trabalho das equipes de Saúde da Família do Centro da Cidade de São Paulo
precisa ser estudado. Elas são a porta de entrada para um mundo quase
impenetrável e se pudessem atuar de modo integrado, sem dúvida, teriam maior
eficácia. Nunca esquecendo de que o problema das drogas não é de exclusiva
competência da saúde.
As manobras e propagandas contra as drogas só promovem exclusão e incitação
ao uso. E por outro lado, como afirmou um enfermeiro que atua na região, a
cracolândia é o lugar mais democrático da cidade, ali qualquer um é aceito.
Divulgando cada passo positivo, valorizando o trabalho desses cuidadores, a
mídia provavelmente não faria bons negócios, mas contribuiria para uma das
mais preciosas tarefas da construção da democracia: a de tratar como
cidadãos os nossos piores congêneres.
*Psicanalista, autor de Clínica Peripatética (Editora Hucitec). Morador do
bairro Campos Elíseos, em São Paulo, próximo à cracolândia.
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Tendo em vista os questionamentos gerados em nossa sociedade sobre a Resolução nº 20 da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) (saiba mais clicando aqui da Prefeitura do Rio de Janeiro, o Conselho Regional de Psicologia (CRP-RJ) convida para um debate sobre o novo Protocolo do Serviço Especializado em Abordagem e sobre as práticas decorrentes de sua aplicação. O encontro será realizado no próximo dia 14 de julho, às 18h, no Auditório da sede do CRP-RJ (Rua Delgado de Carvalho, 53, Tijuca, Rio de Janeiro).
O convite é destinado a toda a categoria, mas especialmente para os psicólogos da SMAS (que trabalham nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social – Creas –, Centro de Referência de Assistência Social – Cras –, abrigos e profissionais que atuam nos equipamentos especializados em dependência química); e para os psicólogos dos Centros de Atenção Psicossocial (Capsi, Capsad) e outros dispositivos assistenciais de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro (SMSDC).
A Resolução foi determinada no final de maio pela SMAS. O documento determina uma nova metodologia de abordagem às crianças e adolescentes usuários de drogas que vivem nas ruas. De acordo com ele, meninos e meninas sob tais condições são recolhidos de forma compulsória para internação sendo submetidos, ainda, a um encaminhamento à Delegacia de Proteção a Crianças e Adolescentes (DPCA) para verificação de ficha criminal. A medida tem o apoio de parte do judiciário e do Ministério Público.
O Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro está empenhado na luta, pois entende que essas determinações ferem os direitos fundamentais das crianças, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, assinada pelo Brasil e por quase todas as nações em 1989 em Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU).
A ideia é que a categoria, tanto profissionais favoráveis quanto os contrários à medida, levantem questões sobre o tema. O CRP pretende fazer com que, juntos, os psicólogos e psicólogas pensem o que determina a Resolução e o que vai contra os princípios do Código de Ética da categoria para, a partir daí, definir quais devem ser as ações.
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Fonte: Agência USP de Notícias: http://www.usp.br/agen/
Publicado em 28/abril/2011
O trabalho realizado nos Centros de Apoio Psicossocial (CAPs) da cidade de São Paulo seria beneficiado caso os profissionais de saúde tivessem maiores possibilidades de acesso a atividades de cultura e arte. Esta é uma das constatações de uma pesquisa de mestrado realizada pela terapeuta ocupacional Ana Tereza Costa Galvanese na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). “Os professores da rede municipal de ensino da Capital, por exemplo, pagam meia-entrada nos cinemas e teatros, mas esse benefício não é estendido para os profissionais de saúde que trabalham com atividades de arte e cultura, como acontece nos CAPs”, aponta.
Estudo analisou 126 atividades culturais e artísticas dos Centros de Apoio Psicossocial
Os CAPs existem em todo o Brasil e surgiram a partir da reforma psiquiátrica brasileira. Eles visam a substituição do antigo modelo, pautado no asilamento em hospitais psiquiátricos fechados, por uma proposta inovadora de atendimento em rede de cuidados, horizontalizado e de base territorial. A pesquisadora explica que os Centros são direcionados para pessoas com transtornos mentais mais severos e persistentes, como depressão grave e alguns casos de esquizofrenia. Entre outras formas de cuidado, eles oferecem atividades como música, artes plásticas, teatro, dança, cinema, fotografia, vídeo, etc., tanto nos próprios centros, como também em conjunto com espaços culturais da comunidade, como bibliotecas e casas de cultura. O trabalho é realizado por uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psiquiatras, arte educadores, etc. E atividades culturais, como cinema, exposições e teatro, são fundamentais para os profissionais desenvolverem os trabalhos com as pessoas atendidas pelos CAPs.
A pesquisadora analisou o tema em sua dissertação de mestrado A produção do cuidado através de atividades de arte e cultura nos Centros de Atenção Psicossocial CAPS / Adultos do município de São Paulo, apresentada em novembro de 2010 na FMUSP, sob a orientação da professora Ana Flávia Pires Lucas D’Oliveira.
Ana Tereza destaca que pessoas atendidas no CAPs são, como muitas outras, produtoras de cultura e de arte. Por isso, deveria ser dada uma maior consideração à produção cultural que os participantes realizam lá. Como exemplo, ela cita o artista plástico Artur Bispo do Rosário (1909 ou 1911 – 1989). Diagnosticado com esquizofrenia paranoide, ele viveu internado em um hospital psiquiátrico durante mais de 50 anos, mas isso não o impediu de produzir dezenas de objetos e peças destacadas no cenário da arte internacional. Mas o trabalho dele somente teve destaque quando se tornou público: “O reconhecimento que se dá a um trabalho de arte e de cultura depende da visibilidade que ele tem na sociedade”, destaca.
Visibilidade
Uma outra conclusão do estudo é a necessidade de dar mais visibilidade às atividades de cultura e lazer realizados no CAPs enquanto formas de trabalho qualificado que beneficiam os pacientes atendidos, a fim de romper com o rótulo de “entretenimento” que muitas dessas iniciativas têm entre os profissionais. “Um profissional de saúde que leva um grupo de pessoas em tratamento para assistir a uma comédia no cinema está realizando um atividade terapêutica, mas isso pode ser encarado de uma maneira equivocada”, explica.
O estudo de Ana Tereza foi realizado entre 2007 e 2009 e faz parte de uma pesquisa mais ampla intitulada Avaliação dos CAPs do município de São Paulo, coordenada pela professora Andréia de Fátima Nascimento, do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Ana Tereza foi uma das participantes da iniciativa e os dados de seu mestrado foram obtidos a partir deste projeto de pesquisa.
No mestrado, Ana Tereza analisou 126 atividades oferecidas em 21 CAPs da cidade direcionados para o público adulto, entre os 22 existentes na época. A análise foi feita com base nos relatórios produzidos por equipes de três pesquisadoras que participaram do projeto da professora Andréia Nascimento. Nos chamados “cadernos de campo” elas anotavam a rotina de todas as atividades oferecidas durante uma semana em cada um dos CAPs, além de breves depoimentos dos profissionais envolvidos em cada trabalho.
Tendências de cuidados
Na análise do material, Ana Tereza verificou a existência de três tendências nos cuidados das pessoas atendidas pelos CAPs. “As mais comuns foram as atividades realizadas exclusivamente dentro dos CAPs, voltadas à ampliação das competências pessoais [como falar, ouvir o outro], às interações dentro dos grupos e o foco no grupo enquanto uma ferramenta terapêutica”, aponta a pesquisadora.
A segunda tendência caracterizou-se por uma perspectiva clínica desenvolvida na interface da arte e da saúde, com desdobramentos em direção ao território. “Isso acontece quando a pessoa atendida pelo CAPs participa de uma oficina de pintura com um artista plástico em um espaço cultural da comunidade em que mora e expõe o próprio trabalho ao lado de uma pessoa da vizinhança. Aqui ele é, de fato, um produtor de cultura”, explica Ana Tereza. “Uma terceira e minoritária tendência se refere a dificuldades na condução das atividades, como a ausência de oportunidades de experiência estética e cultural por meio da atividade, já que essas dependem também dos repertórios dos próprios profissionais. Isso mostra que oferecer ao profissional de saúde mais possibilidades de acesso a atividades culturais pode beneficiar as pessoas que são atendidas nos CAPs”, finaliza a terapeuta.
Mais informações: (14) 8134-4249 ou email anagalvanese@yahoo.com.br
Palavras chave: arte, CAPs, Centros de Apoio Psicossocial, Cultura, FMUSP, reforma psiquiátrica.
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Fonte: Agência USP de Notícias: http://www.usp.br/agen/
Publicado em 28/abril/2011
O acompanhante terapêutico auxilia pessoas que necessitem alcançar a autonomia.
Dizer exatamente qual é a função de um acompanhante terapêutico é algo praticamente impossível, de acordo com a pesquisa da psicóloga Luciana Chauí Berlick, realizada no Instituto de Psicologia (IP) da USP. A indefinição que permeia todos os aspectos da atividade, inclusive sobre o perfil de quem ocupa ou poderia ocupar a função, gera angústia nos próprios profissionais, que emergem como aqueles que auxiliam os “sofredores psíquicos” a alcançarem a autonomia, para que consigam construir ou reconstruir suas redes sociais na comunidade da qual fazem parte.
No entanto, os acompanhantes reconhecem essa indefinição como responsável por proporcionar uma amplitude de possibilidades de atuação profissional, resultando em benefícios para o acompanhado. Na pesquisa Andarilhos do Bem: Os caminhos do Acompanhamento Terapêutico, a autora analisou a história do Acompanhamento Terapêutico (AT) e o discurso daqueles que trabalham na ocupação. “O papel da atividade ganha espaço na sociedade contemporânea, cuja marca é o individualismo competitivo e a perda de referências do coletivo, que destituem as pessoas de suas relações sociais”, conta Luciana.
As entrevistas com nove profissionais que atuavam como acompanhantes na época da pesquisa e a observação da literatura existente sobre o tema foram os instrumentos para as análises da pesquisadora. Mas a psicóloga destaca que não há ainda muitos estudos que abordam o assunto, uma vez que essa atividade foi “criada” recentemente, na década de 1970, na Argentina, nomeada pelo psiquiatra Eduardo Kalina.
Falas legitimadoras
Os discursos analisados indicam que o profissional que trabalha acompanhando é munido de um objetivo: perseguir a qualidade do vínculo afetivo com seus acompanhados, a fim de oferecer possibilidades que reinsiram a pessoa na sociedade. “O ‘bem’ ao qual me refiro no título do trabalho diz respeito a tentativa constante do acompanhante de levar a autonomia à pessoa e, dessa forma, a cidadania”. Segundo Luciana, o profissional cumpre o papel de ouvir aqueles que ninguém ouve, dando-os voz, e considerando o que dizem como verdade. “A verdade para eles, do universo deles”, coloca a psicóloga. “Dentro desse contexto, levamos a dignidade”, completa.
Na tentativa de entender mais sobre a função do profissional, Luciana investigou os discursos apresentados nas entrevistas a partir da metodologia da Análise Institucional do Discurso, elaborada pela professora Marlene Guirado, orientadora da pesquisa. “Ouvi o que os entrevistados diziam sobre ‘o que é ser acompanhante’, buscando as falas que se repetiam e que poderiam vir a legitimar características do Acompanhamento Terapêutico como atividade e profissão”, esclarece a psicóloga.
Profissionalização
De acordo com o estudo, a atividade aborda funções muito variadas. Além disso, o perfil dos acompanhados é distinto, abrangendo desde deficientes físicos e crianças muito agitadas à psicóticos. Por conta disso, Luciana afirma a importância de ouvir os que trabalham atualmente como acompanhantes no Brasil, considerando que a profissionalização do Acompanhamento Terapêutico tem sido motivo de discussão no mercado de trabalho do País e também nas universidades.
Segundo Luciana, os acompanhantes brasileiros, por conta de não existirem como “figura jurídica”, ou seja, profissionalizados, acabam não podendo atuar no serviço público, contratados como acompanhantes terapêuticos. “No Centro de Atenção Psicossocial (CAPs), por exemplo, o acompanhante é uma figura muito importante, com a qual a população brasileira mais necessitada ainda não pode contar de maneira garantida. É possível que um profissional que seja contratado exerça funções de um acompanhante terapêutico, mas se ele parar de trabalhar, quem pode garantir que a pessoa que ocupará a vaga também vai fazer o acompanhamento?”, questiona a autora.
“Na Argentina os acompanhantes já estão profissionalizados. Porém, no Brasil, ainda se analisa os prós e contras da legalização para essa profissão, cuja indefinição é uma característica que se apresenta benéfica em diversos aspectos”.
“É possível levantar a questão de que a busca por uma definição mais fechada, decorrente da profissionalização, pode “engessar”, ou “limitar” o exercer da atividade”, esclarece a psicóloga.
Variedade e amplitude
Nas falas dos entrevistados, também estava presente a ideia de que qualquer pessoa, de diferentes áreas, pode vir a trabalhar como at. “Dentre os acompanhantes que participaram da pesquisa, três eram psicólogos, três eram terapeutas ocupacionais e os outros três, enfermeiros”. Relacionado a esse aspecto do Acompanhamento, os discursos investigados mostraram que os profissionais sugerem a criação de um curso específico, que defina o “perfil” da atividade. “Mas como a ocupação abrange filosofia, biologia, medicina, sociologia, direito, dentre outras muitas áreas do saber, é possível que nenhum curso dê conta dessa definição”, aponta a autora do trabalho.
O Acompanhamento Terapêutico representa uma atividade profissional muito importante para a “Reforma Psiquiátrica”, que começou na década de 1960 e está presente no contexto da sociedade contemporânea. “A Reforma propõe transformações no tratamento da loucura”, explica a psicóloga. “O Acompanhamento Terapêutico está intimamente ligado à ideia de criação de serviços que substituam os manicômios, e que não tratem as pessoas deslocando-as do convívio social, nem privando-as da cidadania e da dignidade”. Luciana defendeu seu doutorado no dia 20 de abril de 2011.
Mais informações: (11) 3297-9081, (11) 9111-3852, email luchaui@usp.br ou diluclo@terra.com.br
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Para aqueles que acreditam em um mundo sem grades, onde toda e qualquer diferença é bem-vinda, o 18 de maio significa o enfrentamento do estigma que ronda a pessoa que sofre com o transtorno mental, reafirma seu direito de um tratamento público, integral e de qualidade e a possibilidade de exercer sua cidadania.
Vivemos em tempos de privatização. Passados mais de 20 anos da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), torna-se necessário reafirmar os valores e princípios da Reforma Sanitária e da Reforma Psiquiátrica Brasileira, sobretudo os ideais de ampliação da esfera pública e de transformação social ue motivaram essa importante conquista da sociedade brasileira.
Os princípios da saúde pública brasileira, conquistados por anos de luta de movimentos populares, grupos comunitários, usuários, familiares e seus trabalhadores, permanecem sendo atacados pelos segmentos que se opõem à idéia de um Estado solidário e democrático e à construção de políticas sociais redutoras das desigualdades, universalistas e com controle social.
É por isso que em 2011 reafirmamos a defesa do SUS e dos Direitos Humanos, combatendo as estruturas manicomiais que apostam na exclusão social e no isolamento. Por incrível que pareça, ainda permanecem as denúncias constantes de violências e mortes sem apuração em uma ‑fragrante violação de Direitos Humanos.
As respostas pautadas na exclusão e no isolamento resistem e conseguiram aprovar a criação de leitos em Comunidades Terapêuticas, opondo-se claramente às deliberações da IV Conferência Nacional de Saúde Mental – Intersetorial, colocando em risco a implementação de uma rede de atenção para usuários de álcool e outras drogas pautados pelos princípios do SUS, da redução de danos e da Reforma Psiquiátrica.
Neste momento, queremos também marcar nosso compromisso histórico com os movimentos sociais antimanicomiais. É hora de avançar na construção de redes intersetoriais que possibilitem a diversidade do cuidado, a crítica, a ética e o respeito. Redes que ampliem a possibilidade de construção de um modelo de desenvolvimento solidário, diverso e com justiça social.
A Semana da Luta Antimanicomial de 2011 convida a Economia Solidária, a Juventude, a Cultura e outros segmentos a se juntarem na construção deste outro mundo possível: Em defesa do SUS e pelo fortalecimento das Redes Antimanicomiais!
Este projeto conta com os apoios de:
Associação Brasileira de Saúde Mental – Abrasme
Associação Vida em Ação
Fórum da Luta Antimanicomial de Sorocaba – Flamas
Rede de Saúde Mental e Economia Solidária
Sindicato dos Psicólogos do Estado de São Paulo – SinPsi
Acesse programação: http://www.crpsp.org.br/lutaantimanicomial
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Inscrições até 31 de maio de 2011
Participe e divulgue!
O Prêmio prevê seis categorias artísticas: Esculturas/instalações; Pinturas e ilustrações; Fotografias; Poesias; Contos e crônicas; e Vídeos.
Serão premiados os três primeiros colocados em cada categoria (com dedução de impostos): R$ 2 mil para o 1º lugar; R$ 1,5 mil para o 2º lugar; e R$ 1 mil para o terceiro colocado.Os demais, até o 10º lugar, receberão certificados de Menção Honrosa.
O prêmio Arthur Bispo do Rosário homenageia o sergipano que viveu cinco décadas como interno, diagnosticado como esquizofrênico, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, RJ.
No início dos anos 60, Bispo do Rosário trabalhou como um “faz tudo” em uma clínica pediátrica, morando isolado no sótão, e desenvolveu grande parte de sua produção artística. Em 1969, voltou para a Colônia, onde ficou até sua morte, em 1989. Erro! O nome de arquivo não foi especificado.
Sua história mostra que, mesmo em condições adversas, ele pôde provar com sua arte a capacidade criadora do ser humano. Este também é o objetivo do concurso, aberto a todos que, direta ou indiretamente utilizaram serviços de Saúde Mental nos CAPS, nos Centros de Convivência, nos atendimentos psicológicos ou psiquiátricos das UBS, por exemplo.
Navegue pelo site www.crpsp.org.br/premio para saber como participar, os prazos para inscrição de trabalho, entre outras informações.
Consulte também: eventos02@crpsp.org.br; tel.: (11) 3061-9494, ramais 111, 130, 137 e 317.