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Nos dia 8, 9 e 10 de outubro de 2015, a Equipe Nós esteve presente no Congresso Internacional de Acompanhamento Terapêutico: “clinica em las fronteras, caminos del AT em lo cotidiano” realizado na cidade de Córboda, Argentina. O congresso foi organizado pela Faculdade de Psicologia da Universidade Nacional de Córdoba (UNC) em parceria com a Associação de Acompanhantes Terapêuticos da República Argentina (AATRA). Houve uma grande adesão chegando a 700 inscritos. Muitos assuntos foram debatidos nas mesas de temas livres e mesas redondas com psicanalistas, acompanhantes terapêuticos e psicólogos principalmente da Argentina, México e do Brasil.

Dentre os diversos temas que apareceram, nos chamou a atenção a mesa redonda sobre Acompanhamento Terapêutico e Inclusão Escolar. Um dos palestrantes dessa mesa foi Sebastián García (membro da AATRA de Mar Del Plata) que abordou a questão da regulação do Acompanhamento Terapêutico na instituições educativas da província de Buenos Aires. Resgataremos brevemente o que foi apresentado por García para, em seguida, propormos uma reflexão sobre a prática que ocorre aqui em São Paulo. Importante ressaltar que utilizaremos a discussão a respeito do lugar do at1 em escolas que tem ocorrido na Argentina como ponto de partida para refletirmos sobre nossa compreensão do papel do at na escola no Brasil, e mais especificamente, em São Paulo. É certo que há particularidades no modo de o profissional atuar e das legislações vigentes em cada um dos países, no entanto, “pegaremos carona” na discussão aberta por García para apresentarmos como entendemos o dispositivo do AT em escolas.

Para contextualizar, lembramos que a maneira como o at está inserido nas escolas em São Paulo possui, atualmente, um caráter marginal, isto é, se está dentro e fora da escola simultaneamente. A inexistência de um vínculo formal com a escola, assim como a não regulamentação dessa prática produz consequências diversas para a prática do at. Por um lado, não se está protegido e amparado por uma lei trabalhista; por outro, é possível construir o enquadre do trabalho de acordo com a demanda singular de cada criança, família e escola. Esse seria apenas um ponto da discussão.

Sebastián García, em sua exposição, fala sobre a regulamentação da prática do Acompanhamento Terapêutico na Argentina. Atualmente, o at pode ser formado em psicologia, mas não necessariamente, para alguém poder dizer-se at deve realizar um curso técnico de nível superior. Segundo a lei de regulamentação do AT na escola, apresentada por García, do ano de 2013, haveria dois tipos de apoios possíveis para serem solicitados pela escola: o primeiro de caráter assistencial, ou seja, um profissional que pudesse auxiliar a criança a deslocar-se pela escola, nos seus cuidados de higiene pessoal, organização, etc. – algo mais semelhante ao que chamamos de “cuidador” ou do trabalho do AVE (Auxiliar de Vida Escolar) na Rede Pública da prefeitura de São Paulo; e o segundo de caráter terapêutico que trabalharia sobre o laço social da criança, esse seria o tipo de apoio em que o at é solicitado. Segundo Sebastián García, na Argentina, entende-se o AT como aquele apoio de caráter transitório, portanto não naturalizado naquele espaço e que não pode ser encarado pela escola como um requisito ou condição para a matricula do aluno. O que determina a entrada do at na escola não é o diagnóstico médico, mas uma avaliação realizada pela equipe escolar.

Até esse momento, poderia se dizer que esse tipo de AT é o semelhante ao que realizamos aqui em São Paulo. Mas há peculiaridades do AT portenho, apontadas por Sebastián García, das quais destaco duas:

1- Todo acompanhante terapêutico deve pertencer a uma instituição de saúde que lhe oferece supervisão para o caso acompanhado;

2- O at deve participar dos projetos institucionais da escola;

Assim, vamos entendendo que na Argentina, se por um lado, esse at deve receber uma supervisão de uma instituição externa a escola, por outro, deve participar das reuniões internas da equipe escolar. Dentro e fora também parece ser o lugar ocupado pelo at em Buenos Aires. No entanto, nos ocorre pensar que a grande aproximação entre o at e a escola (seja participando das reuniões internas, seja estando muitas horas na escola, por exemplo acompanhando uma criança full time2) pode ser problemática. No nosso entendimento, o at não é da escola, ele é da criança. Pode (e é importante que o faça) trabalhar com a equipe escolar, mas desde um lugar de quem desconhece o funcionamento da instituição. Estar envolvido nos impasses e na rotina da escola pode interferir diretamente na maneira como esse profissional se posiciona em relação à criança: paciente ou aluno?

Assim, vemos delinear-se uma situação em que o acompanhante terapêutico corre o risco de ser tomado como um membro da equipe escolar (pelos professores, alunos e pela criança que acompanha). Ainda que seu foco de trabalho, nos enfatiza Sebastian García, “seja o terapêutico e não o pedagógico”, sua prática estará fortemente influenciada pelos discursos institucionais sobre os alunos. Acreditamos ser de extrema importância que o at possa manter-se dentro e fora da escola, dentro para poder trabalhar e dialogar com a equipe escolar, mas fora também para que, longe dos vícios da instituição seja capaz de perceber as cristalizações, e assim, fazer furo ali onde todo o saber parece já sabido. O acompanhante terapêutico na escola não possui todo o saber sobre a criança, pelo contrário, ele pode ajudar na construção de novos saberes a partir de novas perguntas. É preciso que alguém se pergunte, que alguém não saiba, que esteja dentro e fora para que haja movimento, improviso e novas criações na direção da inclusão possível. Um lugar não-todo para o at na escola é um lugar de incômodo pois é um não lugar, uma não profissão, um lugar “à margem do estabelecido” (como Mannoni quis que fosse Bonneuil3). Caminhar na direção da regulamentação do Acompanhamento Terapêutico na escola seria necessariamente eliminar a potência desse dentro e fora? Acompanhemos essa discussão…

Lenara Spedo Spagnuolo

Outubro/2015

1Utilizamos as abreviações at para nos referirmos ao profissional acompanhante terapêutico e AT para designar o dispositivo do Acompanhamento Terapêutico.

2Expressão utilizada por Sebastián García em sua exposição.

3Fazemos referência ao título de um dos capítulos do livro de Maud Mannoni intitulado “Uma ação à margem do estabelecido”. Cf: MANNONI, Maud (1973). Educação Impossível. Com a colaboração de Simone Benhaim e Robert Lefort e um grupo de estudante. Rio de Janeiro. Francisco Alves, 1988.

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A Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e a Biblioteca Virtual de Psicoanalisis de Latinoamerica (BiviPsiL) são dois portais online que reúnem, organizam e disponibilizam um vasto material referente a saúde, saúde pública, psicanálise e áreas afins.

Além de estudos, artigos e livros, há também materiais institucionais sobre políticas públicas em saúde como cartilhas, manuais, revistas e legislação.

Para o AT que trabalha em interface com o SUS e quaisquer aparelhos públicos de saúde mental como residências terapêuticas, CAPS, inclusão escolar, projetos não governamentais sobre autismo, e outros, esses portais constituem valiosa fonte de informação para auxiliar a sua prática de acompanhamento terapêutico e o trabalho em rede.

Segue os links para os portais:

Biblioteca Virtual em Saúde – BVS: http://bvsms.saude.gov.br/

Biblioteca Virtual de Psicoanalisis de Latinoamerica – BiviPsiL: http://www.bivipsil.org/php/index.php

Cartilha “O SUS de A a Z”: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2013/agosto/28/sus-3edicao-completo-190911.pdf

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O assunto do diagnóstico (ou a ausência dele) quando se atende uma criança em Acompanhamento Terapêutico é tema obrigatório de reflexão por parte do AT. Além das dificuldades clínicas para a elaboração do diagnóstico estrutural de crianças, no Acompanhamento Terapêutico há ainda que se pensar o papel desse diagnóstico nas relações que compõe o laço social dessa criança, seja na família ou na escola. O artigo de Rinalda de Oliveira Duarte proporciona uma reflexão sobre o tema do diagnóstico infantil, provocando os AT a refletirem sobre o tema.

O caso da “Pequena Sereia” – uma reflexão sobre diagnóstico diferencial e final de análise com crianças

Rinalda de Oliveira Duarte

Resumo

O artigo propõe uma reflexão clínica sobre o diagnóstico estrutural de psicose e sobre as dificuldades em se considerar tal diagnóstico, na ausência de delírios e alucinações. A constatação foi embasada na noção de estruturas psíquicas, baseadas na teoria psicanalítica de Lacan. Discute-se, com passagens do atendimento clínico, a consequência desorganizadora de uma intervenção que se consistiu em uma hipótese diagnóstica de neurose e os efeitos da mudança no manejo, produzidos ao se reformular a hipótese diagnóstica, encaminhando o caso para o final de análise.

Link para o artigo na íntegra: http://lacaneando.com.br/3800-2/

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Estilos da Clinica

ISSN 1415-7128 versión impresa

Estilos clin. v.10 n.19 São Paulo dic. 2005

A mulher que não existe no laço social: um caso de paranóia

The woman who does not exist in the social: interchange: a case of paranoia

Beatriz Helena Martins de Almeida1

Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum São Paulo

RESUMO

Neste artigo, a partir do recorte clínico de um caso de paranóia atendido em acompanhamento terapêutico, busquei, por meio do referencial teórico da Psicanálise de orientação lacaniana, localizar os mecanismos presentes no desencadeamento e saída da crise, com a finalidade de orientar o tratamento possível em direção ao laço social. Privilegiei a articulação teórica pela vertente da identificação. Procurei demonstrar como a identificação às insígnias paternas sustentou a paciente no laço social por um longo período. O evento traumático desencadeou a dissolução imaginária. O remanejamento imaginário dos significantes, enquanto identificação aos atributos maternos, possibilitou a saída da crise e a estabilização, no entanto foi insuficiente como sustentação ao laço social, indicando a necessidade de um passo a mais em direção ao laço social.

Palavras-chave: Acompanhamento terapêutico, Psicanálise, Psicose, Paranóia, Identificação, Laço social.

ABSTRACT

In this article, revering to the clinical case of paranoia attended in therapeutic accompaniment, in consideration of the theoretical referential system of Lacans Psychoanalysis, I was locating the mechanisms that are present in the resolutions that lead to the exit of the crisis and like this, direct the treatment in direction of a social interchange. I emphasised the theoretical articulation of the identification. I tried to demonstrate like the identification to the paternal attributes supported the patient in the social interchange for a long period. The traumatic event then advanced the imaginary dissolution. The imaginary rehandling of the signifiers, ones identified to the motherly attributes, made the exit of the crisis possible and caused the stabilization. However, it was insufficient to sustain the social interchange and indicates the necessity of a step more towards it.

Keywords: Therapeutic accompaniment, Psychoanalysis, Psychosis, Identification, Social interchange.

O acompanhamento terapêutico é uma estratégia clínica que se presta ao atendimento de patologias mentais severas, dentre as quais podemos destacar as psicoses, em que, em geral, observa-se o constrangimento do laço social. Estratégia clínica que, nascida a partir dos pressupostos da Reforma Psiquiátrica, visa a reinserção social como alternativa às práticas asilares de tratamento da loucura. O caráter refratário da psicose ao laço social exige, para além de ações de cidadania no âmbito social, a atenção clínica como fundamento para emergência do sujeito na psicose.

Foi como acompanhante terapêutica, buscando respostas para os impasses da clínica com psicóticos, que me encontrei com a psicanálise.

Neste artigo, apresento um recorte clínico de um caso de paranóia, atendido em acompanhamento terapêutico, buscando, por meio do referencial teórico da Psicanálise, localizar os mecanismos presentes no desencadeamento e saída da crise, com a finalidade de tentar articular o seu tratamento possível em direção ao laço social. Devo salientar, que privilegiei nesse trabalho uma articulação pela vertente da identificação.

Carlota, em sua juventude, destacou-se por suas ações no Movimento Estudantil. Foi excelente musicista e uma professora inteiramente dedicada a entender como a criança aprende.

Suas teorias sobre a aprendizagem infantil tiveram um caráter de vanguarda para sua época. Carlota entendeu que “o ser é corpo e a aprendizagem é um processo total, que integra a cabeça e o corpo, que deve ser vivenciado pelas crianças por meio dos cinco órgãos do sentido e das sinapses decorrentes da percepção, preocupando-se com a respiração, a nutrição e o movimento”. Preocupou-se em oferecer um ambiente propício para que as crianças experimentassem ativamente o processo de aprendizagem, não tolerando a palavra ensino, que localiza o professor como detentor do saber, “excluindo” a criança do processo. Pregou a transdisciplinaridade e combateu as práticas de avaliação que inibiam a aprendizagem.

Pesquisou, estudou, estabeleceu relações, demonstrou e aplicou suas idéias, porém nunca escreveu a respeito, incomodando-se sobremaneira com qualquer demanda que tenha recebido nesse sentido, reclamava: « – peçam aos doutos », indicando sua impossibilidade de responder a partir da posição de autora.

Carlota achava que seus pais foram “exemplares”. O pai tinha uma personalidade muito forte e jamais levava “desaforo” para casa, sendo extremamente correto e eficiente em tudo o que fazia. A mãe era uma mulher perfeccionista e autoritária, que exigia das filhas a limpeza da casa em dias programados, fiscalizando minuciosamente a qualidade do serviço; era excelente dona de casa e fazia crochê com perfeição.

A morte acidental de um filho adolescente desencadeou uma crise, que se fez notar na escola em que ela trabalhava e levou a direção pedagógica a sugerir-lhe uma licença médica e a afastá-la de suas atribuições como professora.

Carlota não aceitou essa decisão, resistiu como pôde, procurou apoio no sindicato e em outras entidades, porém sem sucesso. Tentou fazer uma denúncia na imprensa, mas não lhe deram crédito.

Os anos seguintes foram marcados por alguns episódios alucinatórios e delirantes que acabaram restringindo paulatinamente sua circulação social, culminando num isolamento em seu apartamento, de onde não saía há 12 anos.

No momento em que comecei a atendê-la, permitia apenas a entrada do marido, das pessoas da família ou muito próximas, o que acarretava inúmeros desconfortos em termos da manutenção dos equipamentos da casa.

Mantinha todos os buracos de seu apartamento fechados. Colou papel kraft nas janelas, teceu cortinas de crochê, tapou as tomadas e os ralos e não atendia ao telefone, nem ao interfone.

Mostrou-me o banheiro e indicou o ralo coberto, contou-me baixinho que os “japoneses” faziam com que saísse um gás do ralo que lhe fazia muito mal. Sofreu com eles o que os judeus sofreram com os nazistas, e alertou-me que se eu contasse para alguém o que havia visto, eles me matariam.

Carlota contou que perdeu sua cidadania quando foi impedida de trabalhar, teve sua identidade e carteira de trabalho cassadas e por isso não podia sair à rua. Perguntou-me se eu sabia o que acontecia a uma pessoa que sai sem documentos: os policiais pediriam os documentos, e como ela não os possuía, sentenciariam: « recolham a vadia ». Ela preferiu ficar em casa, a passar por vadia, por vagabunda.

Ao longo dos atendimentos, relatava suas teorias sobre a aprendizagem e descrevia episódios em que fora perseguida, injustiçada e cerceada ao longo de toda a sua vida, o que atribuía ao fato de ser mulher e uma insignificante professorinha. Com freqüência dizia: _ « Beatriz, a mulher não existe, o mundo é dos homens », referindo-se ao poder econômico.

Carlota dirigiu a mim uma questão: _ « Qual você acha que é a relação entre o meu empenho na aprendizagem das crianças e as cacetadas e a homada? »

As cacetadas referiam-se a um episódio em que ela estava passando na rua e uma velha lhe deu uma cacetada na cabeça, e não contente ainda deu outra. Já a homada referia-se a um episódio em que, saindo de seu prédio, percebeu vários homens à sua volta, impedindo que ela passasse, a partir do que concluiu: _ « Se não posso sair, então é o confinamento, pois muito bem, eu prezo muito a vida, a vida é bela, o amor é lindo, confino-me ».

Ela deixou claro que o “confinamento” foi uma reação em defesa à própria vida, já que se viu em risco.

Passou a dedicar-se aos afazeres da casa e aos cuidados com uma alimentação saudável, de maneira a controlar a saúde e o metabolismo das pessoas que comiam em sua casa.

Carlota disse que passou a ser uma “mulher coisa”, uma “mulher coisinha”, e me perguntou: _ « O que você prefere: ser uma mulher vaquinha de presépio ou uma mulher coisinha? Para mulher não tem outra opção ».

Os “japoneses” apareciam freqüentemente como elemento perseguidor em seus delírios. Com medo, sempre fazia mímica para referir-se a eles, puxando o canto dos olhos. Dizia que os “japoneses” tramavam tudo na surdina e iriam dominar o mundo.

Constantemente reunia sinais que comprovavam seus receios. Tinha amigas que moravam em prédios construídos pelo “Takaoka”, que sofreram, adoeceram e morreram. Notou que seus alunos que comiam Miojo ficavam com muito chulé. Tinha uma cunhada casada com japonês, que acreditava ter roubado seu apartamento. Entendeu que eles sofreram com a bomba atômica e que, portanto, queriam vingar-se do mundo; no entanto não entendia o que isso concernia a ela.

Depois de vários anos do início dos atendimentos, Carlota recordou-se de uma cena, que parece conferir uma nova significação em sua construção delirante. Exclamou surpresa: _ « Agora entendi, nunca tinha pensado nisso antes ». Uma aluna sua, pequena e “japonesa”, precisou ir ao banheiro, mas como tinha medo de ir sozinha, Carlota precisou acompanhá-la. No banheiro, a menina disse que não conseguia subir a calcinha e Carlota precisou ajudá-la. Nesse momento, entrou a encarregada da limpeza. Carlota entendeu que essa mulher “de cabeça suja” achou que ela estava abusando sexualmente da menina e relacionou que algumas perseguições que sofrera na escola onde dava aulas foram devido às acusações que essa mulher deveria ter feito. Sentiu-se pega numa armadilha, que fora tramada pelos pais”japoneses” da menina. Entendeu que a menina fora instruída a agir daquela forma para que ela fosse acusada de depravação sexual.

Muitas vezes entendeu que as pessoas insinuavam que tivesse comportamentos sexualmente duvidosos, o que a ofendia sobremaneira, fazendo questão de salientar seu caráter moral inquestionável.

Depois de vários anos, recontou o episódio da “homada”, inferindo um conteúdo sexual: _ « Homens cercando na rua, onde já se viu? Eu nunca provoquei, não me comportei de uma forma que eles se sentissem convidados a vir para cima de mim; nunca na minha vida, eu, uma senhora, eu já era avó. Veio um, e outro, e outro, e eu não podia passar, se eu fosse para um lado, um ia, se eu fosse para outro lado, outro ia ».

Perguntei o que ela fez: _ « Eu parei e encarei; então eles abriram passagem. Não dá para aceitar um negócio desses. Eles me confinaram, estou confinada ». Contou que em seguida vieram as cacetadas e o dia em que tropeçou na rua e que, na mesma época, sua irmã morrera internada num hospital psiquiátrico.

Sobre o abuso sexual dos homens sobre as mulheres, ela esclareceu que na puberdade começa a ejaculação para os meninos e a menstruação para as meninas, inferindo uma equivalência entre esses fenômenos. Acrescentou que esses acontecimentos são naturais e sem problemas, mas que a indústria alimentícia fabrica alimentos afrodisíacos, causando excesso de libido, de maneira a provocar que os meninos abusem das meninas.

Ao mesmo tempo em que foi reconstruindo sua história, Carlota empenhou a árdua tarefa de limpeza de armários e estantes, jogando fora muitas coisas significativas. Fez todo um trabalho de rememoração por meio das lembranças que essas coisas iam lhe trazendo. Contou histórias sobre sua vida, construiu algumas respostas para alguns enigmas, estabeleceu relações entre fatos e, ao final de alguns encontros, dizia: _ « Hoje você me conheceu melhor ».

Foi nesse contexto, decorridos alguns anos em seu tratamento, que Carlota passou a falar sobre as mortes em sua família: do pai, das irmãs e do filho. Contou que seu pai morrera de maneira trágica, atropelado, na época em que ela participava ativamente do Diretório Acadêmico em sua juventude. Um dirigente da faculdade, “japonês”, alertara seu pai sobre as atividades políticas que ela desempenhava; o pai revidou dizendo que “ela era filha de um homem que já havia afastado um diretor de faculdade”. Carlota entendeu que a morte do pai foi provocada por esse “japones”. Sentindo-se culpada, entendeu que ela era concernida no “assassinato do pai”, assim como no “assassinato das irmãs”, e também no “assassinato do filho”, embora não encontre motivos justificados para tais fatos.

Depois de sete anos de tratamento, ainda não saía de seu apartamento, mas melhorou a relação interpessoal com os familiares, voltou a falar ao telefone, passou a permitir a entrada de técnicos para pequenos reparos, deixou instalar o fogão, trocou a geladeira, tirou o papel kraft das janelas, destapou alguns ralos e mantinha a casa mais aberta.

Para designar a transferência no caso, tomo o neologismo “inimigona”. Destaco o significante “inimigona” com o valor de neologismo porque condensa inimiga e amiga: « Você é minha inimigona! », dito num tom muito afável e amistoso, como se dissesse: “continue vindo como minha inimiga, para que eu possa recebê-la”. É possível estabelecer uma relação com o significante que permitiu a instalação da transferência no início do tratamento. Ela considerou que minha presença em sua casa era uma “imposição” e eu concordei, tomando o cuidado de tranqüilizá-la quanto às minhas intenções, assim ela pôde consentir minha presença em encontros regulares, para os quais sempre fui esperada. Ou seja, ela não pôde assumir uma posição de sujeito, mas de assujeitada à imposição de gozo do Outro.

O caso demonstra que a consistente identificação com “A Professora”, sustentou Carlota no laço social por muito tempo, e que o evento traumático “morte do filho” desencadeou uma crise, incrementada pelo afastamento de seu cargo. Que mecanismos e qual indicação clínica é possível deduzir daí?

Para avançar em relação a essa questão, proponho distinguir a identificação com “A Professora” localizada no momento anterior à crise, da identificação observada no momento após a crise, em que Carlota assume o papel de dona de casa dedicada. O percurso acadêmico e profissional converge à identificação com “A Professora” e refere-se à identifi cação às insígnias paternas, portanto, identificação aos significantes do pólo do Ideal de eu. E a identificação com a dona de casa refere-se à identificação aos atributos maternos, como uma identificação do tipo eu ideal.

Se considerarmos que a passagem pelo complexo do Édipo implica a ordenação do Ideal do eu e do supereu, enquanto função no sujeito, como é possível articularmos a identificação às insígnias paternas presentes no Ideal de eu, numa estrutura psicótica?

Observa-se, na clínica das psicoses, especialmente da melancolia e da paranóia, a manifestação dos significantes do supereu, que comparecem como delírio de injúria e delírio de perseguição. Notamos a presença maciça, sobretudo nas crises, de um supereu imediato, percebido pelo psicótico como estranho, vindo de fora, situado nos outros, ou ainda, comparecendo enquanto alucinação verbal.

Na paranóia, a experiência clínica permite observar a manifestação da identificação aos atributos paternos em termos de significantes, que comparecem como significantes encarnados, não dialetizáveis, diferente do que ocorre na neurose. Não basta que haja significantes para que haja simbólico. Daí Carlota acreditar-se “A Professora” que falta aos homens, a única que detém o saber pedagógico necessário à Humanidade.

O Ideal do eu nas neuroses permite a assunção da posição sexual na partilha entre os sexos. Posicionar-se como homem ou mulher. Reconhecer a diferença, ou seja, reconhecer o feminino enquanto Outro sexo e consentir a castração.

Para que isso ocorra, é necessário que o significante Nome-do-Pai _ não um significante qualquer _, se inscreva no campo do Outro, significando o enigma do Desejo da Mãe, produzindo como efeito a significação fálica; operação essa, metafórica: um significante no lugar de outro produzindo uma significação nova. A significação fálica rearranja o imaginário em termos da identificação ao pai: ter o falo. O falo enquanto significante da falta, o que falta na imagem do Outro, pode ser substituído, representado, funciona como um significante intercambiável. O pai que entra em função nessa operação é o pai simbólico. Há uma reorganização psíquica em torno da significação fálica que estrutura o sujeito enquanto dividido, organiza um discurso e possibilita o laço social.

A identificação ao pai tem sua matriz no imaginário, mas se efetiva em termos significantes, trata-se de uma identificação aos significantes do pai, que Lacan (1957-1958) chama de”insígnias do pai”.

Sabemos que nas psicoses, ocorre a foraclusão do significante Nome-do-Pai no campo do Outro. Podemos dizer que há insígnias do pai _ enquanto identificação a atributos paternos _ nos psicóticos?

Nas psicoses, quando o sujeito é interpelado a responder a partir de uma posição simbólica e a metáfora paterna não operou, há o desencadeamento da crise e o sujeito se encontra com o nada, nada de significação, é a perplexidade, momento de extrema angústia. O que foi foracluído no simbólico retorna no real, um significante faz-se ouvir no real e daí a conseqüente inundação do imaginário e o remanejamento dos significantes. No surto psicótico, o Nome-do-Pai foracluído no simbólico retorna como emergência de pai real.

É necessário agarrar-se aos significantes enquanto tentativa de saída da crise. De onde vêm os significantes? Os significantes disponíveis para o sujeito são os significantes de sua história, os mesmos que fazem o tecido do supereu e do Ideal do eu, porém não mediados, ou seja, não ordenados pela significação fálica. Do lado do supereu, os significantes comparecem nos fenômenos de injúria e do lado do Ideal do eu, ocorre uma identificação aos atributos paternos, uma identificação total, encarnada, colada ao significante, uma identificação ao mesmo tempo total e frágil, que carece de efeito metafórico. Aqui se trata de agarrar-se ao pai imaginário para se fazer ser.

Se nas neuroses o que possibilita o efeito metafórico é a inscrição do significante Nome-do-Pai no campo do Outro, o que possibilita o efeito metafórico nas psicoses como suplência ao Nome-do-Pai na metáfora delirante?

O pai enquanto simbólico barra o gozo da mãe _ primeiro representante do Outro (lugar dos significantes). Nas psicoses trata-se, também de barrar o Outro. Barrar no sentido de desinflar o gozo do Outro absoluto e localizar no Outro os significantes que permitem a identificação às insígnias paternas que possam conferir significação à existência do paranóico, ainda que seja uma significação unívoca.

O Outro pode ser suportado pelo analista. O analista se oferece como corpo na clínica das psicoses, num momento preciso que é o da saída da crise. Oferece-se como corpo especular, onde o psicótico pode apoiar-se no sentido da integração imaginária do eu e oferece-se como corpo de significantes, de onde, após o rompimento da cadeia significante, o psicótico pode emprestar as insígnias que favorecem a saída da crise. Num momento posterior, quando o acesso aos significantes foi retomado, o analista posiciona-se como secretário, como testemunha que pode avalizar a significação em que o psicótico está tentando se sustentar, no sentido de orientar uma metaforização que funcione como suplência para a significação fálica que não se inscreveu, permitindo um basteamento na imaginarização incessante.

A afirmação de Carlota que “a mulher não existe”, inversamente a Lacan (1975), denota literalmente a não inscrição do feminino enquanto diferença entre os sexos. Ao afirmar que “a mulher não existe e que o mundo é dos Homens”, Carlota afirma a relação sexual, ou seja, a mulher existe para completar o Homem, formando o casal: explorador/explorada, perseguidor/perseguida. Ela faz par com a criança, enquanto excluídos do acesso à economia do gozo fálico.

A crise de Carlota foi desencadeada pela morte do filho, por não possuir recursos simbólicos para significar tal evento, lançando Carlota no encontro com o nada de significação, com a perplexidade. A conseqüência foi o retorno no real do que foi fo racluído no simbólico, que se manifestou em fenômenos alucinatórios verificados nos episódios das “cacetadas” e da “homada”, dentre outros.

O afastamento do cargo de professora fez vacilar a identificação às insígnias paternas que sustentavam a existência de Carlota, exigindo um remanejamento significante em termos de identificação. Confinada em seu apartamento, caçada em sua cidadania, anulou sua existência e concluiu que a mulher não existe. É nesse panorama que surgiu a assunção da “mulher coisinha”, como mulher domesticada pelo homem, denotando a posição de gozo, objeto de gozo do Outro, daí a feminização, presente no efeito de “empuxo a mulher”. O empuxo a mulher é equivalente à ausência da significação fálica.

É curioso notarmos que a saída da crise como “mulher coisinha”, fez recurso aos emblemas maternos: fazer crochê (para tapar buracos), costurar, cozinhar, limpar; no entanto, observa-se no caso que essa identificação aos atributos maternos enquanto eu ideal, contribuíram para mantê-la fora do laço social. Embora tenha sido de vital importância para retirá-la da crise e instalá-la num lugar frente ao Outro, o “empuxo a mulher” parece insuficiente para dar conta da questão do laço social no tratamento possível da paranóia. Será necessário investir em algo da ordem da identificação às insígnias paternas, como professora e musicista, para orientá-la na direção de um laço social possível?

É curioso notarmos que o recurso à identificação com “A Professora” traz em seu bojo, “a vadia, a puta, a mulher vaquinha”. Também na paranóia, a identificação às insígnias paternas comparece tanto no pólo do Ideal do eu quanto no pólo do supereu.

Podemos localizar “A Professora” como identificação às insígnias paternas no pólo do ideal do eu, a “mulher doméstica e submetida aos caprichos do homem” como identificação aos emblemas maternos no pólo do eu ideal e a “vadia acusada de comportamentos duvidosos”como presentificação dos significantes paternos do pólo do supereu.

Apostar na identificação às insígnias paternas como professora e musicista na vertente do ideal de eu, e procurar deflacionar a importância da emergência dos significantes do supereu que comparecem como exigência de comportamento moral, pode ser uma estratégia para re-abrir caminho em direção ao laço social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Lacan, J. (1955-1956). O Seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1988.

Lacan, J. (1957-1958). O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1999.

Lacan, J. (1958). De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In Escritos, Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1998.

Lacan, J. (1975). O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1985.

Soler, C. (2004). Estabilización de la psicosis. In El inconciente a cielo abierto de la psicosis. Buenos Aires: JVE ediciones.

Tenório, F. (2001). A psicanálise e a clínica da reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro, RJ: Rios Ambiciosos.

Recebido em agosto/2005

Aceito em novembro/2005

1 Psicóloga, psicanalista e acompanhante terapêutica. Membro fundadora da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum São Paulo. Supervisora clínica do Departamento de Acompanhamento Terapêutico do Instituto de Desenvolvimento e Pesquisa da Saúde Mental e Psicossocial A Casa.

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ELIANE BRUM

 

Os “loucos” são aqueles que dizem mais dos “normais” do que de si mesmos: o livro ‘Holocausto Brasileiro’ conta um capítulo tão tenebroso quanto escondido da história recente do Brasil – e que está longe de ser encerrado

João Gomes da Silva soltou a voz ao empolgar-se com a Banda da Polícia Militar. Ao seu lado, o funcionário levou um susto:

– Por que você nunca disse que falava?

E Antônio:

– Uai, mas ninguém nunca perguntou.

Ele tinha passado 21 anos como mudo na instituição batizada de“Colônia”, considerada o maior hospício do Brasil, no pequeno município mineiro de Barbacena. Em 21 anos, nenhum médico ou funcionário tinha lhe perguntado nada. Aos 68 anos, Antônio ainda não sabe por que passou 34 anos da vida num hospício, para onde foi despachado por um delegado de polícia. “Cada um diz uma coisa”, conta. Ao deixar o cárcere para morar numa residência terapêutica, em 2003, Antônio se abismou de que era possível acender e apagar a luz, um poder que não sabia que alguém poderia ter. Fora dos muros do manicômio, ele ainda sonha que está amarrado à cama, submetido a eletrochoques, e acorda suando. A quem escuta a sua voz, ele diz: “Se existe um inferno, a Colônia é esse lugar”.

Antônio ganhou nome, identidade e história em uma série excepcional de reportagens. Publicado na Tribuna de Minas, de Juiz de Fora (MG), o trabalho venceu o prêmio Esso de 2012 e foi ampliado para virar um livro que chega às livrarias nesta semana. Na obra, a jornalista mineira Daniela Arbex ilumina o que chamou de “holocausto brasileiro”: a morte de cerca de 60 mil pessoas entre os muros da Colônia ao longo do século XX. Convidada por Daniela para fazer o prefácio de seu livro, abri uma exceção e aceitei, pela mesma razão que me move a escrever esta coluna: a importância do tema para compreender nossa época.

Em Holocausto Brasileiro (Geração Editorial), Daniela Arbex devolve aos corpos sem história, que eram os corpos dos “loucos”, uma história que fala deles, mas fala mais de nós, os ditos “normais”. Durante décadas, as pessoas eram enfiadas – em geral compulsoriamente – dentro de um vagão de trem que as descarregava na Colônia. Lá suas roupas eram arrancadas, seus cabelos raspados e, seus nomes, apagados. Nus no corpo e na identidade, a humanidade sequestrada, homens, mulheres e até mesmo crianças viravam “Ignorados de Tal”.

Qual é a história dos corpos sem história? Esta é a questão que Daniela se propõe a responder pelo caminho da investigação jornalística. Eram Antônio Gomes da Silva, o mudo que falava, Maria de Jesus, encarcerada porque se sentia triste, Antônio da Silva, porque era epilético. A estimativa é de que sete em cada dez pessoas internadas no hospício não tinham diagnóstico de doença mental.

Quem eram eles, para além dos nomes apagados? Epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, mendigos, militantes políticos, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas, violentadas por seus patrões, eram esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, eram filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento. Eram homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns deles eram apenas tímidos. Cerca de 30 eram crianças.

Qual era o destino de quem o Estado determinava que não podia viver em sociedade, que era preciso encarcerar, ainda que não tivesse cometido nenhum crime? Homens, mulheres e crianças às vezes comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da Serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Instintivamente faziam um círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e no de dentro, na tentativa de não morrer.

Faziam o que fazem os pinguins imperadores para sobreviver ao inverno na Antártica e chocar seus ovos, como se viu num documentário que comoveu milhões anos atrás. Os humanos da Colônia não comoviam ninguém, já que sequer eram reconhecidos – nem como humanos nem como nada. Alguns não alcançavam as manhãs.

Os pacientes da Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias os eletrochoques eram tantos e tão fortes que a sobrecarga derrubava a rede do município. Francisca Moreira dos Reis, funcionária da cozinha, conta no livro sobre o dia em que disputou uma vaga para atendente de enfermagem, em 1979.

Ela e outras 20 mulheres foram sorteadas para realizar uma sessão de eletrochoques nos pacientes masculinos do Pavilhão Afonso Pena, escolhidos aleatoriamente para o “exercício”. As candidatas à promoção cortavam um pedaço de cobertor e enchiam com ele a boca da cobaia, amarrada à cama. Molhavam a testa, aproximavam os eletrodos das têmporas e ligavam a engenhoca na voltagem de 110. Contavam até três e aumentavam a carga para 120. A primeira vítima teve parada cardíaca e morreu na hora. A segunda, um garoto apavorado aparentando menos de 20 anos, teve o mesmo destino. Francisca, cuja vez de praticar ainda não tinha chegado, saiu correndo

Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Morriam de tudo – e também de invisibilidade. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, mais de 1.800 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos passaram a ser decompostos em ácido, no pátio da Colônia, na frente dos pacientes ainda vivos, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Dos homens e mulheres do hospício, encarcerados pelo Estado e oficialmente sob sua proteção, até os ossos se aproveitava.

Daniela Arbex salvou do esquecimento um capítulo que muitos gostariam que seguisse nas sombras, até o total apagamento, no qual parte dos protagonistas ainda está viva para refletir tanto sobre seus atos quanto sobre suas omissões. Entrevistou mais de 100 pessoas, muitas delas nunca tinham contado a sua história. Além de sobreviventes do holocausto manicomial, Daniela escutou o testemunho de funcionários e de médicos. Um deles, Ronaldo Simões Coelho, ligou para ela meses atrás: “Meu tempo de validade está acabando. Não quero morrer sem ler seu livro”. No final dos anos 70, o psiquiatra havia denunciado a Colônia e reivindicado sua extinção: “O que acontece na Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto, qualquer que seja a sua forma”. Perdeu o emprego.

Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios, esteve no Brasil e conheceu a Colônia. Em seguida, chamou uma coletiva de imprensa, na qual afirmou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”. Hoje, restam menos de 200 sobreviventes da Colônia. Parte deles deverá ficar internada até a morte: são aqueles que foram tão torturados por uma vida dentro do hospício que já não conseguem mais viver fora. Parte foi transferida para residências terapêuticas para reaprender a tomar posse de si mesma. Sônia Maria da Costa está entre os que conseguiram dar o passo para além do cárcere. Às vezes ela coloca dois vestidos para compensar a nudez de quase uma vida inteira.

Ao empreender uma investigação jornalística para escrever este livro, Daniela leva adiante pelo menos três trabalhos fundamentais de documentação contemporânea: as 300 fotos feitas pelo fotógrafo Luiz Alfredo, para a revista O Cruzeiro, a primeira a denunciar a Colônia, em 1961(duas fotografias deste acervo são publicadas nesta coluna); a reportagem transformada no livro Nos porões da loucura (Pasquim), do jornalista Hiram Firmino; e o documentário Em nome da razão, de Helvécio Ratton, filmado em 1979, que se tornou o símbolo da luta antimanicomial.

Ao ler Holocausto Brasileiro – vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil, é prioritário resistir à tentação de acreditar que essa história acabou. Não acabou. Ainda existem no Brasil instituições que mantêm situações semelhantes às da Colônia, como algumas reportagens têm denunciado – ainda que não de forma maciça como no passado muito, muito recente, e com nomes mais palatáveis do que “hospício” ou “manicômio”. As conquistas produzidas pela luta antimanicomial, que botou fim às situações mais bárbaras, estão hoje sob ameaça de retrocesso. É nesse momento que entramos nós, a sociedade.

Se não quisermos continuar sendo cúmplices da barbárie descrita por Daniela Arbex neste livro, é preciso refletir sobre o nosso papel. É bastante óbvio perceber que fábricas de loucura como a Colônia só persistiram por um século porque podiam contar com a cumplicidade da sociedade. Mesmo quando o holocausto foi denunciado na revista de maior sucesso da época, O Cruzeiro, no início dos anos 60, passaram-se décadas até que a realidade do hospício começou – muito lentamente – a mudar. E outras gerações foram aniquiladas entre seus muros. Como é possível? É possível porque a sociedade prefere que seus indesejados sejam tirados da frente de seus olhos. Não enxergar, para muitos, ainda é solução. E esta é uma das razões pelas quais a tese do encarceramento sempre encontra ampla ressonância – e tem sido largamente manipulada por políticos ao longo da história do Brasil, e inclusive hoje.

Tivesse a sociedade disposta a enxergar o que estava estampado na revista preferida das famílias brasileiras, em 1961, e muitas tragédias teriam sido impedidas. Como a de Débora Aparecida Soares. Ela foi um dos cerca de 30 bebês roubados de suas mães. As mulheres trancafiadas na Colônia conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga, para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados. Débora nasceu em 23 de agosto de 1984. Dez dias depois, foi adotada por uma funcionária do hospício. A cada aniversário, sua mãe, Sueli Aparecida Resende, epilética, perguntava a médicos e funcionários pela menina. E repetia: “Uma mãe nunca se esquece da filha”.

Em 2005, aos 21 anos, Débora nada sabia sobre a sua origem, mas não conseguia pertencer de fato à família de adoção. Tentou o suicídio. Como os comprimidos demoravam a fazer efeito, dirigiu-se à estrada de ferro, a mesma onde décadas antes havia passado o trem que levara sua mãe ao inferno. Foi salva por uma amiga, que a carregou para o hospital no qual mais uma coincidência seria descoberta tarde demais. Dois anos depois, Débora iniciou uma jornada em busca da mãe. O que alcançou foi a insanidade da engrenagem que mastigou suas vidas. Sua busca pela mãe é um dos momentos mais trágicos e reveladores do livro, ao unir passado, presente e futuro no corpo em movimento desta filha.

Há uma tendência no senso comum de considerar que categorias como “loucos” são determinadas, imutáveis, indiscutíveis e, principalmente, isentas dos humores do processo histórico. Não são. Cada sociedade cria seus proscritos – uma construção cultural que varia conforme o momento e as necessidades de quem detém o poder a cada época.

Há um livro essencial sobre este tema: Os infames da história – pobres, escravos e deficientes no Brasil (Faperj/Lamparina). Na apresentação, a autora, a psicóloga Lilia Ferreira Lobo, que escreve sob a inspiração de Michel Foucault, faz uma descrição primorosa:

“Existências infames: sem notoriedade, obscuras como milhões de outras que desapareceram e desaparecerão no tempo sem deixar rastro – nenhuma nota de fama, nenhum feito de glória, nenhuma marca de nascimento, apenas o infortúnio de vidas cinzentas para a história e que se desvanecem nos registros porque ninguém as considera relevantes para serem trazidas à luz. Nunca tiveram importância nos acontecimentos históricos, nunca nenhuma transformação perpetrou-se por sua colaboração direta. Apenas algumas vidas em meio a uma multidão de outras, igualmente infelizes, sem nenhum valor. Porém, sua desventura, sua vilania, suas paixões, alvos ou não da violência instituída, sua obstinação e sua resistência encontraram em algum momento quem as vigiasse, quem as punisse, quem lhes ouvisse os gritos de horror, as canções de lamento ou as manifestações de alegria.”

Aqueles que foram encarcerados dentro da Colônia e de outros hospícios do Brasil, em algum momento perturbaram alguém ou a ordem instituída com a sua voz – ou apenas com a sua mera existência. Em vez de serem escutados no que tinham a dizer sobre a sociedade da qual faziam parte, foram arrancados dela e trancafiados para morrer – primeiro pelo apagamento simbólico, depois pela falência do corpo torturado. A pergunta que vale a pena fazer neste momento, diante da história documentada pelo Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, é: quem são os proscritos de nossa época?

Vale a pena repetir que, na Colônia, sete em cada dez não tinham diagnóstico de doença mental. O diagnóstico, além de não representar nenhuma verdade absoluta sobre alguém, perde qualquer possível valor num lugar como o hospício descrito. Sua única utilidade seria como justificativa oficial para retirar pessoas incômodas do espaço público, aquelas cujo sofrimento não poderia existir, violando neste ato seus direitos mais básicos. Mas o fato de 70% dos internos não ter nem sequer um diagnóstico é um dado importante para perceber com que desenvoltura os manicômios serviram – e ainda servem – a um propósito não dito, mas largamente exercido pelo Estado: o de ampliar as categorias das pessoas que não devem ser escutadas, calando todos aqueles que dizem não apenas de si, mas de toda a sociedade.

Vivemos um momento histórico muito delicado,em que está sendo determinado quais são os novos infames da história – e qual deverá ser o seu destino. E também em que medida o Estado tem poder sobre os corpos. Me arrisco a dizer que, se ontem os proscritos eram os epiléticos, as prostitutas, os homossexuais, as meninas pobres e grávidas, as esposas insubmissas, hoje os proscritos que se desenham no horizonte histórico são os drogados – e especificamente os “craqueiros”. E o destino apresentado como solução tem sido, de novo, a internação. Inclusive a compulsória. A tarja de dependência química funciona como um silenciamento, já que não teriam nada a dizer nem sobre a sociedade em que vivem, nem sobre sua própria vida. São apenas um corpo sujeitado ao Estado para ser “curado”. E, para a maioria, nada melhor do que tirá-los da frente – às vezes literalmente.

É bom aprender com a história. Holocausto Brasileiro é um excelente começo para uma reflexão não apenas sobre o passado, mas sobre o presente. Como afirma Daniela Arbex: “O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final”.

 

Artigo escrito por Eliane Brum para Revista Época.

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O avesso da lenda(Artes e Ofícios), A vida que ninguém vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O olho da rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (Globo). elianebrum@uol.com.br Twitter: @brumelianebrum

Artigo publicado originalmente em http://revistaepoca.globo.com//Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/06/os-loucos-os-normais-e-o-estado.html

 

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A quinta edição da “Bíblia da Psiquiatria”, o DSM 5, transformou numa “anormalidade” ser normal.

ELIANE BRUM

A poderosa American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria – APA) lançou neste final de semana a nova edição do que é conhecido como a “Bíblia da Psiquiatria”: o DSM-5. E, de imediato, virei doente mental. Não estou sozinha. Está cada vez mais difícil não se encaixar em uma ou várias doenças do manual. Se uma pesquisa já mostrou que quase metade dos adultos americanos tiveram pelo menos um transtorno psiquiátrico durante a vida, alguns críticos renomados desta quinta edição do manual têm afirmado que agora o número de pessoas com doenças mentais vai se multiplicar. E assim poderemos chegar a um impasse muito, mas muito fascinante, mas também muito perigoso: a psiquiatria conseguiria a façanha de transformar a “normalidade” em “anormalidade”. O “normal” seria ser “anormal”.

A nova edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) exibe mais de 300 patologias, distribuídas por 947 páginas. Custa US$ 133,08 (com desconto) no anúncio de pré-venda no site da Amazon. Descobri que sou doente mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos 90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo apartamento. Remédio pra mim. “Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite condensado, remédio pra mim. Identifiquei outras anomalias, mas fiquemos neste parágrafo gigante, para que os transtornos psiquiátricos que me afetam não ocupem o texto inteiro.

Há uma novidade mais interessante do que as doenças recém inventadas pela nova “Bíblia”. Seu lançamento vem marcado por uma controvérsia sem precedentes. Se sempre houve uma crítica contundente às edições anteriores, especialmente por parte de psicólogos e psicanalistas, a quinta edição tem sido atacada com mais ferocidade justamente por quem costumava não só defender o manual, como participar de sua elaboração. Alguns nomes reluzentes da psiquiatria americana estão, digamos, saltando do navio. Como não há cordeiros nesse campo, movido em parte pelos bilhões de dólares da indústria farmacêutica, é legítimo perguntar: perceberam que há abusos e estão fazendo uma “mea culpa” sincera antes que seja tarde, ou estão vendo que o navio está adernando e querem salvar o seu nome, ou trata-se de uma disputa interna de poder em que os participantes das edições anteriores foram derrotados por outro grupo, ou tudo isso junto e mais alguma coisa?

Não conheço os labirintos da APA para alcançar a resposta, mas acredito que vale a pena ficarmos atentos aos próximos capítulos. Por um motivo acima de qualquer suspeita: o DSM influencia não só a saúde mental nos Estados Unidos, mas é o manual utilizado pelos médicos em praticamente todos os países, pelo menos os ocidentais, incluindo o Brasil. É também usado como referência no sistema de classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). É, portanto, o que define o que é ser “anormal” em nossa época – e este é um enorme poder. Vale a pena sublinhar com tinta bem forte que, para cada nova patologia, abre-se um novo mercado para a indústria farmacêutica. Esta, sim, nunca foi tão feliz – e saudável.

O crítico mais barulhento do DSM-5 parece ser o psiquiatra Allen Frances, que, vejam só, foi o coordenador da quarta edição do manual, lançada em 1994. Professor emérito da Universidade de Duke, ele tem um blog no Huffington Post que praticamente usa apenas para detonar a nova Bíblia da Psiquiatria. Quando a versão final do manual foi aprovada, enumerou o que considera as dez piores mudanças da quinta edição, num texto iniciado com a seguinte frase: “Esse é o momento mais triste nos meus 45 anos de carreira de estudo, prática e ensino da psiquiatria”. Em carta ao The New York Times, afirmou: “As fronteiras da psiquiatria continuam a se expandir, a esfera do normal está encolhendo”.

Entre suas críticas mais contundentes está o fato de o DSM-5 ter transformado o que chamou de “birra infantil” em doença mental. A nova patologia é chamada de “Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor” e atingiria crianças e adolescentes que apresentassem episódios frequentes de irritabilidade e descontrole emocional. No que se refere à patologização da infância, o comentário mais incisivo de Allen Frances talvez seja este: “Nós não temos ideia de como esses novos diagnósticos não testados irão influenciar no dia a dia da prática médica, mas meu medo é que isso irá exacerbar e não amenizar o já excessivo e inapropriado uso de medicação em crianças. Durante as duas últimas décadas, a psiquiatria infantil já provocou três modismos — triplicou o Transtorno de Déficit de Atenção, aumentou em mais de 20 vezes o autismo e aumentou em 40 vezes o transtorno bipolar na infância. Esse campo deveria sentir-se constrangido por esse currículo lamentável e deveria engajar-se agora na tarefa crucial de educar os profissionais e o público sobre a dificuldade de diagnosticar as crianças com precisão e sobre os riscos de medicá-las em excesso. O DSM-5 não deveria adicionar um novo transtorno com o potencial de resultar em um novo modismo e no uso ainda mais inapropriado de medicamentos em crianças vulneráveis”.

A epidemia de doenças como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) tem mobilizado gestores de saúde pública, assustados com o excesso de diagnósticos e a suspeita de uso abusivo de drogas como Ritalina, inclusive no Brasil. E motivado algumas retratações por parte de psiquiatras que fizeram seu nome difundindo a doença. Uma reportagem do The New York Times sobre o tema conta que o psiquiatra Ned Hallowell, autor de best-sellers sobre TDAH, hoje arrepende-se de dizer aos pais que medicamentos como Adderall e outros eram “mais seguros que Aspirina”. Hallowell, agora mais comedido, afirma: “Arrependo-me da analogia e não direi isso novamente”. E acrescenta: “Agora é o momento de chamar a atenção para os perigos que podem estar associados a diagnósticos displicentes. Nós temos crianças lá fora usando essas drogas como anabolizantes mentais – isso é perigoso e eu odeio pensar que desempenhei um papel na criação desse problema”. No DSM-5, a idade limite para o aparecimento dos primeiros sintomas de TDAH foi esticada dos 7 anos, determinados na versão anterior, para 12 anos, aumentando o temor de uma “hiperinflação de diagnósticos”.

Pensar sobre a controvérsia gerada pelo nova “Bíblia da Psiquiatria” é pensar sobre algumas construções constitutivas do período histórico que vivemos. Construções culturais que dizem quem somos nós, os homens e mulheres dessa época. A começar pelo fato de darmos a um grupo de psiquiatras o poder – incomensurável – de definir o que é ser “normal”. E assim interferir direta e indiretamente na vida de todos, assim como nas políticas governamentais de saúde pública, com consequências e implicações que ainda precisam ser muito melhor analisadas e compreendidas. Sem esquecer, em nenhum momento sequer, que a definição das doenças mentais está intrinsicamente ligada a uma das indústrias mais lucrativas do mundo atual.

Parte dos organizadores não gosta que o manual seja chamado de “Bíblia”. Mas, de fato, é o que ele tem sido, na medida em que uma parcela significativa dos psiquiatras do mundo ocidental trata os verbetes como dogmas, alterando a vida de milhões de pessoas a partir do que não deixa de ser um tipo de crença. Talvez seja em parte por isso que o diretor do National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental – NIMH), possivelmente a maior organização de pesquisa em saúde mental do mundo, tenha anunciado o distanciamento da instituição das categorias do DSM-5. Thomas Insel escreveu em seu blog que o DSM não é uma Bíblia, mas no máximo um “dicionário”: “A fraqueza (do DSM) é sua falta de fundamentação. Seus diagnósticos são baseados no consenso sobre grupos de sintomas clínicos, não em qualquer avaliação objetiva em laboratório. (…) Os pacientes com doenças mentais merecem algo melhor”. O NIMH iniciou um projeto para a criação de um novo sistema de classificação, incorporando investigação genética, imagens, ciência cognitiva e “outros níveis de informação” – o que também deve gerar controvérsias.

A polêmica em torno do DSM-5 é uma boa notícia. E torço para que seja apenas o início de um debate sério e profundo, que vá muito além da medicina, da psicologia e da ciência. “Há pelo menos 20 anos tem se tratado como doença mental quase todo tipo de comportamento ou sentimento humano”, disse a psicóloga Paula Caplan à BBC Brasil. Ela afirma ter participado por dois anos da elaboração da edição anterior do manual, antes de abandoná-la por razões “éticas e profissionais”, assim como por ter testemunhado “distorções em pesquisas”. Escreveu um livro com o seguinte título: “Eles dizem que você é louco: como os psiquiatras mais poderosos do mundo decidem quem é normal”.

A vida tornou-se uma patologia. E tudo o que é da vida parece ter virado sintoma de uma doença mental. Talvez o exemplo mais emblemático da quinta edição do manual seja a forma de olhar para o luto. Agora, quem perder alguém que ama pode receber um diagnóstico de depressão. Se a tristeza e outros sentimentos persistirem por mais de duas semanas, há chances de que um médico passe a tratá-los como sintomas e faça do luto um transtorno mental. Em vez de elaborar a perda – com espaço para vivê-la e para, no tempo de cada um, dar um lugar para essa falta que permita seguir vivendo –, a pessoa terá sua dor silenciada com drogas. É preciso se espantar – e se espantar muito.

Vale a pena olhar pelo avesso: quem são essas pessoas que acham que o “normal” é superar a perda de uma mãe, de um pai, de um filho, de um companheiro rapidamente? Que tipo de ser humano consegue essa proeza? Quem seríamos nós se precisássemos de apenas duas semanas para elaborar a dor por algo dessa magnitude? Talvez o DSM-5 diga mais dos psiquiatras que o organizaram do que dos pacientes.

Há ainda mais uma consequência cruel, que pode provocar muito sofrimento. Ao transformar o que é da vida em doença mental, os defensores dessa abordagem estão desamparando as pessoas que realmente precisam da sua ajuda. Aquelas que efetivamente podem ser beneficiadas por tratamento e por medicamentos. Se quase tudo é patologia, torna-se cada vez mais difícil saber o que é, de fato, patologia. Por sorte, há psiquiatras éticos e competentes que agem com consciência em seus consultórios. Mas sempre foi difícil em qualquer área distinguir-se da manada – e mais ainda nesta área, que envolve o assédio sedutor, lucrativo e persistente dos laboratórios.

Se as consequências não fossem tão nefastas, seria até interessante. Ao considerar que quase tudo é “anormal”, os organizadores do manual poderiam estar chegando a uma concepção filosófica bem libertadora. A de que, como diria Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. E não é mesmo, o que não significa que seja doente mental por isso e tenha de se tornar um viciado em drogas legais para ser aceito. Só se pode compreender as escolhas de alguém a partir do sentido que as pessoas dão às suas escolhas. E não há dois sentidos iguais para a mesma escolha, na medida em que não existem duas pessoas iguais. A beleza do humano é que aquilo que nos une é justamente a diferença. Somos iguais porque somos diferentes.

Esse debate não pertence apenas à medicina, à psicologia e à ciência, ou mesmo à economia e à política. É preciso quebrar os monopólios sobre essa discussão, para que se torne um debate no âmbito abrangente da cultura. É de compreender quem somos e como chegamos até aqui que se trata. E também de quem queremos ser. A definição do que é “normal” e “anormal” – ou a definição de que é preciso ter uma definição – é uma construção cultural. E nos envolve a todos. Que cada vez mais as definições sobre normalidade/anormalidade sejam monopólios da psiquiatria e uma fonte bilionária de lucros para a indústria farmacêutica é um dado dos mais relevantes – mas está longe de ser tudo.

E não, eu não acordei doente mental. Só teria acordado se permitisse a uma Bíblia – e a pastores de jaleco – determinar os sentidos que construo para a minha vida.

Artigo escrito por Eliane Brum para Revista Época.

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O avesso da lenda (Artes e Ofícios), A vida que ninguém vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O olho da rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (Globo).
elianebrum@uol.com.br
Twitter: @brumelianebrum

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/05/acordei-doente-mental.html

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         No decorrer de nossa prática clínica temos escutado com atenção observações feitas a respeito do trabalho do psicanalista com pacientes diagnosticados como autistas. Gostaríamos de esclarecer de que modo a psicanálise contribui no tratamento dessas pessoas e suas famílias para que os pais possam escolher o tipo de tratamento que consideram mais indicado para seu filho. O trabalho do psicanalista é uma parte do tratamento dessas pessoas, já que o autismo é considerado um problema que se deve a vários fatores e requer intervenções de uma equipe de profissionais de várias especialidades.

Podemos comparar o trabalho do psicanalista ao de um artesão ou mesmo ao de um pesquisador, uma vez que as construções do projeto clínico precisam ser feitas caso a caso, pois entendemos que nenhuma criança com autismo é igual à outra. Isso implica, ao receber uma família que tenha um filho com autismo, o psicanalista avaliar aquele caso como único, e propor intervenções que levem em conta as necessidades e o sofrimento de cada família em particular. Busca-se, nos primeiros encontros, tanto a possibilidade de interagir com a criança quanto escutar, acompanhar e sustentar a família em suas angústias e preocupações. Tomando como ponto de partida que as pessoas com autismo apresentam dificuldades, fundamentalmente nas áreas da comunicação e interação, e que demonstram interesses restritos, o psicanalista irá considerar no seu trabalho, que, cada pessoa com autismo tem formas singulares de se comunicar e de interagir com seu meio, com os objetos e com os outros.

A participação dos pais no tratamento psicanalítico de crianças foi mudando ao longo dos seus mais de cem anos de história. A tendência atual da psicanálise é a de incluir nos atendimentos de crianças com autismo a todos aqueles que se ocupam diretamente da criança, procurando uma parceria na construção de projetos clínicos e educacionais. Isto significa construir estratégias em conjunto para favorecer a autonomia das crianças e jovens com autismo e ajuda a entender os sentimentos de exclusão, submissão, culpabilização ou fracasso que possam surgir. Ao participar ativamente do tratamento dos filhos e, simultaneamente, conhecer o trabalho realizado pelo psicanalista, os pais são acolhidos e considerados, descobrindo, junto com o profissional, novas possibilidades de relacionamento com o filho, o que lhes traz profundo apaziguamento da angústia.

Nessa perspectiva, o psicanalista escutará com interesse e atenção o que for dito pelos pais e, a partir daí começará um trabalho de reconstrução da história familiar que aponta à inclusão da criança na família e lhe garante um lugar social.

Nesse trabalho que faz lembrar tanto o do artesão quanto o de pesquisador, é função do psicanalista encontrar janelas de interação e de comunicação com a criança. São aberturas que todas as crianças com autismo costumam ter. Para encontra-las é necessário que o analista coloque  seu corpo, suas palavras, seus gestos e  suas tentativas de brincadeira em ação! A primeira grande conquista do trabalho seria a de ajudar a criança a demonstrar suas vontades e interesses relacionados aos outros, possibilitando que, aos poucos, momentos de interação possam ocorrer. Outra forma de abrir espaços de comunicação é iniciar pequenas mudanças em relação a comportamentos inicialmente sem sentido ou repetitivos oferecendo possíveis significados. Desse modo, alguns gestos ou movimentos passam a ser entendidos pelos outros, facilitando a comunicação e a circulação social. Nesse ponto, a escuta dos achados e construções que os próprios pais trazem a respeito do cotidiano com seus filhos com autismo, são de grande importância para o trabalho clínico.

O psicanalista pesquisa, em cada manifestação, como nas denominadas “estereotipias” ou “movimentos ritualísticos”, os significados possíveis para cada criança, entendendo que, embora eles não pareçam favorecer seu desenvolvimento e seus laços sociais, são resultado de um trabalho da criança em andamento e, por isso, não é bom tentar eliminá-los. Nessa investigação, o psicanalista, em conjunto com a criança e seus pais, leva em conta o limite e a tolerância que a própria criança demonstra frente às intervenções, pois, se forem consideradas excessivas, ela poderá sentir-se invadida, fechando-se ainda mais para o contato com os outros.

O trabalho deverá ser sempre cauteloso e o psicanalista, persistente, buscando não desanimar frente a recusas iniciais ou desistências da criança. O psicanalista deverá insistir em sua oferta e disposição, no sentido de “provocar” e de acionar momentos de curiosidade e de um “querer” na criança, evitando, por outro lado, tornar-se excessivo e invasivo para ela. Para tal, contemplará momentos em que a criança o recuse e o evite, mas continuará junto com ela e com seus pais para, mais adiante, tentar outra vez aproximar-se. Assim, o trabalho ocorrerá na fronteira e na alternância entre a não invasão e a não desistência de encontrar janelas de contato com a criança.

Os pais são considerados parceiros porque são eles que detêm o principal conhecimento sobre seus filhos. O tratamento psicanalítico os ajudará a buscar novas formas de se relacionar com os filhos, minimizando os momentos de paralisia e de impotência em situações extremas e nos contextos mais difíceis. Lembrando-nos, ainda, que também é o próprio profissional psicanalista que pode vivenciá-los.

Se os outros componentes da equipe interdisciplinar vão se ocupar de pontos fundamentais para o autismo, como a fala, a aquisição de hábitos e a aprendizagem da escrita, o psicanalista se debruça na construção da subjetividade. Por isso, considera a especificidade de cada caso e auxilia a criança e sua família a encontrar saídas que diminuam o sofrimento. É necessário, portanto, uma visão interdisciplinar para preservar o acolhimento das dificuldades a serem nomeadas e trabalhadas.  Assim, a posição do psicanalista de considerar as especificidades de cada caso, sua formação e experiência para compreender e dar sentido ajudam à condição de não desistência diante do sofrimento psíquico da criança e seus pais, além de se tornarem profissionais fundamentais para que as pessoas com autismo ampliem sua relação com os outros, interagindo e tentando se comunicar.

“Nas primeiras sessões entrávamos juntos, eu e Arthur. Percebi então minha importância ali naqueles momentos. No início Arthur ainda continuava muito agitado. A psicanalista começou então o Re-conto da nossa história e em muitos momentos Arthur parava e ouvia atentamente o que nós conversávamos. Era uma conversa verdadeira, eu me senti segura em falar como me sentia em relação a ele. Falávamos sobre quando Arthur ainda estava na minha barriga…. Arthur se acalmava ao ouvir sobre nossa história e, vê-lo mais calmo, mais concentrado, me dava um gás para seguir em frente. Eu me senti bem e a relação com meu filho fluía mais naturalmente.

A cada sessão a psicanalista conquistava mais sua confiança. Tinha uma brincadeira que ela fazia da formiguinha que ele adora até hoje. Naquele momento eles já estavam totalmente conectados e as trocas de olhares eram intensas.  Arthur se deixava ser tocado e vi que ele estava mais aberto ao novo. O Re-conto da nossa história foi fundamental para mim e para Arthur.  Percebi que tudo era importante em qualquer relação. Elas (essas crianças) percebem no ato quando as coisas não estão bem. “(FERNANDA, MÃE DE ARTHUR).

Participantes e colaboradores diretos do texto: Adela Stoppel de Gueller (SEDES/Clinica Interdisciplinar Mauro Spinelli/AUPPF); Alfredo N. Jerusalinsky (Lydia Coriat/RS); Claudia Mascarenhas (Instituto Viva Infância/Espaço Moebius Psicanálise/BA); Cristina Abranches Mota Batista (CAIS/MG); Cristina Keiko I. de Merletti (Lugar de Vida – Centro de Educação Terapêutica/SP); Daniela Taulois (pesquisadora IP/USP e Instituto da Criança HC); João Luiz Paravidini (GECLIPS/Universidade Federal de Uberlândia/MG); Julieta Jerusalinsky (NEPPC/SP e Lydia Coriat/RS); Jussara Falek (Prof. IP/USP); Maria Lucia Araújo (FCL/SP); Nathalia Campana (pós IP/USP)

Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública

http://psicanaliseautismoesaudepublica.wordpress.com/

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