Posts Tagged ‘drogadicção’

O projeto

 

é um projeto audiovisual que aposta na circulação da psicanálise para além do divã.

As ruas, a política, espaços coletivos, movimentos sociais, ambientes de formação, as mídias sociais — entre tantos outros — são lugares em que esse saber pode criar novos modos de intervir e pensar, novos conhecimentos e experiências.
A ideia é captar e difundir a voz, a imagem e os gestos de psicanalistas que atuam no campo social através da clínica.  Esses personagens – que compartilham da premissa do projeto e circulam por diferentes territórios – falam de suas origens, áreas de atuação, paixões, formação, questões.
O contato com cada um deles se transforma em um material audiovisual único — um híbrido de documentário, entrevista, fluxo de pensamento por livre associação, encontro aberto com um mestre.
Evento de Lançamento – 08/10 às 17h, na Praça Roosevelt
“O que seria de uma cidade que pretende acabar com os territórios marginais? Não seria um delírio?”, questiona Antonio Lancetti. E continua: “Por exemplo, hoje vivemos a utopia de uma sociedade sem drogas. Alguém já pensou o que seria uma sociedade sem drogas? Seres humanos que não pudessem sair de si? Que teriam que permanecer na normatização chata, quadrada da vida contemporânea desse capitalismo idiotizante que a gente vive?”.
É com essa e outras provocações que Lancetti abre a série PSICANALISTAS QUE FALAM, em lançamento especial na Praça Roosevelt — lugar emblemático para o teatro, outras artes, e novas formas de ocupação do centro da cidade de São Paulo.
Personagem fundamental da luta antimanicomial no Brasil, Lancetti atualmente trabalha com a problemática das drogas e do crack – um grande desafio para a saúde pública em São Paulo.
O evento acontece no dia 08/10 (sábado), às 17h, no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, com exibição exclusiva do primeiro episódio “Lancetti Brasileiro”, seguida de bate-papo com Antonio Lancetti, e as idealizadoras do projeto, Heidi Tabacof e Lúcia Lima.
Acesso e impacto
As entrevistas ficarão disponíveis na internet, sob uma licença Creative Commons — podem ser copiadas e remixadas para fins não comerciais, porém com o crédito original e as derivações compartilhadas sob a mesma licença.
Qualquer um pode assisti-las online no site do projeto.E também organizar uma sessão coletiva em seu espaço, entrando para a rede de impacto do material.
Assistir e debater o material coletivamente contribui para ampliar o alcance e a democratização do acesso à psicanálise. Essa ação de difusão social da série acontece em parceria com a Taturana mobilização Social.
SERVIÇO
Lançamento PSICANALISTAS QUE FALAM
08/10, ÀS 17h
Exibição do episódio inédito LANCETTI BRASILEIRO
seguida de bate-papo sobre TERRITÓRIOS MARGINAIS
com a presença de Antonio Lancetti e das idealizadoras do projeto, Heidi Tabacof e Lúcia Lima.
Local: Espaço Parlapatões
Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação
Mais info:
Página no facebook
www.facebook.com/psisquefalam– em breve no ar (a partir de 30/09)
Site
www.psisquefalam.com – em breve no ar
Para organizar uma sessão no seu espaço
convite-facebook-final
Anúncios

Read Full Post »

Mais do que não se saber o que fazer com o crack, não se sabe falar dele. Antonio Lancetti*

Com honrosas exceções, como a matéria de Eduardo Duarte Zanelato publicada
pela revista Época, caderno São Paulo, no dia 27 de março passado e
intitulada “Elas tiram as pedras do caminho, a rotina das agentes de saúde
que trabalham na cracolândia para convencer os usuários de drogas a se
tratarem da dependência”, a mídia tem se dedicado a publicar matérias e
programas televisivos sensacionalistas e irresponsáveis a respeito do crack.

Muitas equipes de reportagem acompanharam o trabalho de agentes de saúde,
enfermeiros e médicos que conseguem romper o cerco que existe entre esses
intocáveis e o resto da sociedade. Foram testemunhas da persistência desses
trabalhadores do SUS, do conhecimento de histórias de pessoas com vidas
difíceis, quando não escabrosas, que são cuidados, que pedem ajuda. Mas não
deram uma linha a respeito.

Esses repórteres conheceram homens, mulheres, jovens e crianças que deram um
curso inesperado a suas vidas, e estão sendo atendidos pelas equipes de
saúde da família ou pelos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS Álcool e
Drogas e Infantil da Sé, mas preferem divulgar a ideia de que, se você fumar
uma pedra de crack, nunca mais se livrará dela, que a pedra custa cinco
reais e que por dois reais você pode adquirir outra destilada com querosene
ou gasolina chamada oxi. E dá o endereço: Rua Dino Bueno com Helvetia ou seu
entorno chamado “cracolândia paulistana”.

Depois da carga midiática, a população flutuante que frequenta a região dos
Campos Elíseos e adjacências aumentou significativamente. Se durante a
semana há centenas de pessoas nas ruas usando crack, durante o fim de semana
são milhares. É só conferir.

Em 1979, Gilles Deleuze produziu um texto luminoso que começa afirmando:
“Está claro que não se sabe o que fazer com a droga (mesmo com os drogados),
porém não se sabe melhor como falar dela” (Duas Questões, in SaúdeLoucura 3,
Hucitec, São Paulo, 1991). Hoje, em 2011, também não sabemos o que fazer com
a droga, temos muitas dificuldades para cuidar dos drogados e não sabemos,
ou sabemos muito mal falar dela.

Quando alguém se candidata a tratar, cuidar ou, ilusoriamente, salvar essas
pessoas, passa a fazer parte de um conjunto-droga: produção, distribuição,
consumo, repressão, tratamento… Ser cuidador dessas pessoas requer
adentrar em um território complexo, controverso e fascinante.

De que serve o consultório se eles não vão às consultas? Ou as unidades de
saúde que abrem às 7 horas da manhã, se a vida nas bocadas invade a
madrugada?

Em São Paulo, os profissionais do Sistema Único de Saúde conseguem se
vincular com essas pessoas, baseados na práxis do cuidado, na posição ética
de defensores da vida e de promotores de cidadania. Mas esses profissionais
enfrentam inúmeros obstáculos.

Quanto custa conhecer a biografia de um “noia”? Conseguir que a pessoa tire
seus documentos e adira ao tratamento de sua tuberculose, sífilis ou AIDS?
Ainda mais quando chegam os guardas municipais, com seus famosos rapas e
deixam essas pessoas sem documento e sem remédios. O afeto dos agentes de
saúde colide com o gás de pimenta da GCM Guarda Civil Metropolitana, a
truculência da Polícia Militar, a falta de vagas em abrigos, a ausência de
locais atrativos para homens e mulheres como um dia foi o Boraceia.
Na edição 56 da revista Piauí, Roberto Pompeu de Toledo, em “Crianças do
Crack”, mostrou detalhes da vida de alguns jovens e algumas crianças e o
impasse sistemático da metodologia do Serviço de Atenção Integral ao
Dependente (SAID), hospital psiquiátrico conveniado com a Prefeitura de São
Paulo e que importa um pacote de tratamento norte-americano.

Os meninos e meninas magistralmente descritos nessa matéria lá estão, em sua
grande maioria graças ao vínculo de confiança conquistado pelos agentes de
saúde, médicos e enfermeiros do Projeto Centro Legal e do Programa de Saúde
da Família do Centro da Cidade de São Paulo. Porém, uma vez lá internados,
nessa e em outras clínicas, eles perdem o contato com seus cuidadores. A
metodologia centrada exclusivamente na internação hospitalar não se
relaciona com os universos onde as pessoas vivem e por isso os processos
terapêuticos ficam truncados.

É preciso repetir incansavelmente: não é possível enfrentar de modo
simplificado problemas de tamanha complexidade.

Não é verdade que se você experimenta uma vez uma pedra de crack se tornará
um viciado, essa ideia só funciona como alma do negócio.

Não é verdade que a internação seja “a solução” para o tratamento dos
drogados, se assim fosse não haveria nas clínicas pessoas com 30, 40 ou 50
internações.

Também não é verdade que os verdadeiros toxicômanos mudem com qualquer
metodologia clínica conhecida.

É preciso ter condições sociais, relacionais, biológicas e institucionais
para se transformar em um verdadeiro toxicômano.

Mas cocaína e crack são absolutamente funcionais a uma sociedade que
funciona por falta. O efeito fundamental dessas drogas é o da fissura, da
falta de drogas e é disso que as pessoas se tornam adictos: da falta do
produto e do produto que produz quimicamente falta.

E assim como a sociedade capitalista vive da produção de falta, a mídia vive
da produção de notícia ruim. Os espectadores e leitores, transformados em
voyeurs, consomem horas de TV e páginas de jornais e revistas.

Mas a formação do caráter do cuidador ensina ao mesmo tempo nunca cantar
vitória e procurar os pontos e linhas de vida em qualquer experiência. Vemos
que nem tudo está perdido. Enquanto termino de redigir estas linhas, leio na
Folha de S.Paulo a entrevista de Paulina Duarte, Secretária Nacional de
Políticas sobre Drogas, sob o título “Falar que o País vive epidemia de
crack é grande bobagem”, no qual pode se apreciar serenidade e seriedade.

Mais além de começar a desmontar essas ideias alarmistas e que incitam ao
consumo, a mídia poderia se questionar a respeito da eficácia de sua ação e
divulgar com maior cuidado os resultados positivos do trabalho de tratamento
dos CAPS – Álcool e Drogas, dos consultórios de rua, da equipes de redutores
de danos, dos atendimentos de urgência em hospitais e pronto socorros, etc.

O trabalho das equipes de Saúde da Família do Centro da Cidade de São Paulo
precisa ser estudado. Elas são a porta de entrada para um mundo quase
impenetrável e se pudessem atuar de modo integrado, sem dúvida, teriam maior
eficácia. Nunca esquecendo de que o problema das drogas não é de exclusiva
competência da saúde.

As manobras e propagandas contra as drogas só promovem exclusão e incitação
ao uso. E por outro lado, como afirmou um enfermeiro que atua na região, a
cracolândia é o lugar mais democrático da cidade, ali qualquer um é aceito.

Divulgando cada passo positivo, valorizando o trabalho desses cuidadores, a
mídia provavelmente não faria bons negócios, mas contribuiria para uma das
mais preciosas tarefas da construção da democracia: a de tratar como
cidadãos os nossos piores congêneres.

*Psicanalista, autor de Clínica Peripatética (Editora Hucitec). Morador do
bairro Campos Elíseos, em São Paulo, próximo à cracolândia.

Read Full Post »

Tendo em vista os questionamentos gerados em nossa sociedade sobre a Resolução nº 20 da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) (saiba mais clicando aqui da Prefeitura do Rio de Janeiro, o Conselho Regional de Psicologia (CRP-RJ) convida para um debate sobre o novo Protocolo do Serviço Especializado em Abordagem e sobre as práticas decorrentes de sua aplicação. O encontro será realizado no próximo dia 14 de julho, às 18h, no Auditório da sede do CRP-RJ (Rua Delgado de Carvalho, 53, Tijuca, Rio de Janeiro).
O convite é destinado a toda a categoria, mas especialmente para os psicólogos da SMAS (que trabalham nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social – Creas –, Centro de Referência de Assistência Social – Cras –, abrigos e profissionais que atuam nos equipamentos especializados em dependência química); e para os psicólogos dos Centros de Atenção Psicossocial (Capsi, Capsad) e outros dispositivos assistenciais de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro (SMSDC).
A Resolução foi determinada no final de maio pela SMAS. O documento determina uma nova metodologia de abordagem às crianças e adolescentes usuários de drogas que vivem nas ruas. De acordo com ele, meninos e meninas sob tais condições são recolhidos de forma compulsória para internação sendo submetidos, ainda, a um encaminhamento à Delegacia de Proteção a Crianças e Adolescentes (DPCA) para verificação de ficha criminal. A medida tem o apoio de parte do judiciário e do Ministério Público.
O Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro está empenhado na luta, pois entende que essas determinações ferem os direitos fundamentais das crianças, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, assinada pelo Brasil e por quase todas as nações em 1989 em Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU).
A ideia é que a categoria, tanto profissionais favoráveis quanto os contrários à medida, levantem questões sobre o tema. O CRP pretende fazer com que, juntos, os psicólogos e psicólogas pensem o que determina a Resolução e o que vai contra os princípios do Código de Ética da categoria para, a partir daí, definir quais devem ser as ações.

Read Full Post »